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TEORIA DO MEDALHÃO.

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Machado de Assis.

Publicado em 1881, na coletânea Papéis Avulsos. Resolvi recuperá-lo no dia em que o STF estará reunido para decidir o que fazer com a crise que ele mesmo criou e o Senado Federal deixou criar e crescer.

CENA: A sala de jantar; acabam de cear. Diante um do outro, Janjão e o pai.

Pai: — Podes fumar, Janjão?

Filho: — Já fumo, meu pai.

Pai: — Fuma. É um hábito que não condeno em ti, contanto que não seja um vício. A fumaça é uma cousa aérea, que parece ter afinidade com as ilusões da mocidade; demais, dá certa gravidade ao homem. Mas escuta-me. Sabes que fazes hoje vinte e um anos?

Filho: — Sei, meu pai.

Pai: — Pois bem, é tempo de escolher uma carreira. Que tens feito até hoje? Nada. Tens estudado; sim, mas estudar não é viver. O estudo é um instrumento; importa saber manejar esse instrumento. De que te serve saber que Roma foi fundada por Rômulo, que César passou o Rubicão, que a água ferve a cem graus e que o sol é o centro do nosso sistema planetário? Tudo isso é bom, mas não basta para fazer uma posição. Tu precisas de uma posição.

Filho: — Decerto.

Pai: — O meu desejo é ver-te um homem público.

Filho: — Deputado?

Pai: — Talvez mais tarde; por enquanto, basta-me que sejas um medalhão.

Filho: — Um medalhão?

Pai: — Sim, um medalhão. Não sabes o que é um medalhão? É um homem que tem uma posição feita, respeitada, cortejada, que não precisa provar nada a ninguém, porque a sua simples presença basta para impor respeito. Um medalhão não inventa a pólvora, nem descobre a América, mas sabe tirar partido da pólvora e da América dos outros. É uma profissão nobre, lucrativa, que não exige grande esforço de inteligência e assegura uma velhice tranquila e venerada.

Filho: — Mas para ser medalhão não é preciso ter talento?

Pai: — Talento? Deus te livre, Janjão! O talento é o pior inimigo do medalhão. O homem de talento pensa, e o pensamento perturba. O homem de talento discute, e a discussão irrita. O homem de talento quer ter opiniões próprias, e as opiniões próprias dividem os homens. Não, Janjão; para seres um perfeito medalhão, a primeira regra é não teres ideias próprias.

Filho: — Nenhuma?

Pai: — Nenhuma. As ideias próprias são perigosas; são como armas de fogo na mão de uma criança. O que tu deves ter são as ideias de todo o mundo. Se queres ser amado, admirado, aplaudido, pensa como a maioria. A maioria tem sempre razão, Janjão, principalmente quando não pensa em nada.

Filho: — E o que devo fazer das minhas ideias?

Pai: — Mata-as no nascedouro. Se sentires que uma ideia original te quer assomar ao cérebro, sufoca-a imediatamente. Abre uma gazeta, lê os editoriais, consulta os provérbios, o senso comum, as opiniões correntes. Alimenta-te dessas fórmulas feitas que andam na boca de todos. O medalhão deve ser um eco bem educado, não uma voz que desafine o coro.

Filho: — Compreendo.

Pai: — Há mais: o vocabulário. Cuida muito da linguagem. Nada de palavras vulgares, mas também nada de termos excessivamente raros que obriguem o leitor ou o ouvinte a consultar o dicionário. Usa um estilo empolado, solene, cheio de fórmulas veneráveis. Quando falares em público, sê grave; quando escreveres, sê enfático. O adjetivo é o grande amigo do medalhão; abusa do adjetivo. Chama a qualquer coisa “sublime”, “incomensurável”, “insofismável”. Cita sempre os autores clássicos, ainda que não os tenhas lido; basta saberes os nomes e algumas sentenças em latim. O latim, Janjão, faz um efeito prodigioso no espírito dos néscios.

Filho: — E a ironia?

Pai: — A ironia é uma desgraça. Jamais uses de ironia. O povo não entende a ironia, e os homens sérios detestam-na. A ironia parece zombaria, e o medalhão deve ser a personificação da seriedade. Não rias; sorri, quando muito, com benevolência. O riso franco desvaloriza o homem. Olha para os bustos antigos: algum deles está rindo? Não; estão todos graves, com aquele ar de quem está carregando nos ombros o peso do mundo. Imita esses mármores.

Filho: — E os livros? Não devo ler?

Pai: — Pouco. Muito livro desarranja as faculdades. Lê os resumos, os compêndios, as antologias. Lê para poderes citar, nunca para aprofundar. Se leres mais, acabarás tendo dúvidas, e a dúvida é a morte do medalhão. O medalhão não duvida de nada, porque nada examina. Ele aceita o mundo como o mundo se lhe apresenta.

Filho: — Mas se me interrogarem sobre alguma questão difícil?

Pai: — Responde com uma frase geral. Há certas verdades aceitas por toda a humanidade que servem para todas as ocasiões: “O tempo é o melhor juiz”, “A virtude é a sua própria recompensa”, “A ordem é a base do progresso”. Se a questão for de política, louva as instituições e aconselha a prudência. Se for de moral, recomenda o trabalho e a moderação. Nunca tomes partido de modo decisivo antes de saber qual é o lado mais forte. Deixa que os outros se batam; quando a poeira assentar, junta-te aos vencedores e diz que sempre foste da opinião deles.

Filho: — E a amizade?

Pai: — Tem muitos conhecidos e poucos amigos. Os amigos dão trabalho, pedem favores, arrastam a gente para as suas próprias desgraças. Trata a todos com cordialidade e a ninguém com intimidade. A intimidade destrói o prestígio. Sê polido, afável, mas mantém sempre uma barreira entre ti e os outros.

Filho: — E a família? Casar, deverei?

Pai: — Sem dúvida. O casamento dá um ar de estabilidade muito conveniente. Mas casa com reflexão; não por paixão, que a paixão é passageira e cega. Escolhe uma noiva de boa família, com relações vantajosas e, se possível, algum dote. O dote não é o principal, mas ajuda; as relações, porém, são indispensáveis. A família da mulher deve ser uma alavanca para a tua carreira.

Filho: — E se eu tiver vocação para alguma arte? Se me der para pintar ou fazer versos?

Pai: — Se te der para isso, Janjão, chama depressa um médico. A arte é a ruína do homem prático. O poeta morre de fome ou vive na obscuridade; o medalhão janta com os ministros e tem os seus retratos na vitrine das livrarias. Deixa a poesia para os loucos e para os desocupados. A única poesia que o medalhão pode admitir é o elogio fúnebre de um figurão ou um brinde rimado no aniversário de um homem influente. Fora disso, prosa, prosa rasteira, mas com aspecto de profunda filosofia.

Filho: — Meu pai, tudo isso me parece um pouco… hipócrita.

Pai: — Hipócrita? Ora, Janjão! A hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude, dizia um moralista. Não se trata de hipocrisia, mas de adaptação ao meio. Queres tu mudar o mundo? O mundo foi sempre assim e sempre assim será. Se queres vencer nele, tens de aceitar as suas regras. Podes ser honesto, no fundo; mas não faças praça da tua virtude nem da tua inteligência. O que a sociedade quer é ordem, conformidade, paz. O medalhão é a garantia dessa paz, porque ele nada move, nada abala, nada transforma. É a consagração do que existe.

Filho: — E quando eu for velho?

Pai: — Quando fores velho, terás a tua recompensa. Olharás para trás e verás um caminho calmo, sem escândalos, sem tropeços. Terás títulos, condecorações, comendas. Serás convidado para todas as comissões honoríficas, presidirás aos banquetes oficiais, darás pareceres sobre assuntos que não entendes, e todos te escutarão com respeito religioso. E quando morreres, Janjão, terás um enterro de primeira classe, com acompanhamento numeroso, carruagens a perder de vista e discursos inflamados na beira da tua sepultura. Os oradores dirão que a pátria perdeu um dos seus mais nobres filhos, uma inteligência fulgurante, um caráter de diamante. E ninguém rirá, Janjão; ninguém rirá, porque todos saberão que, amanhã, outros medalhões virão continuar a tua obra de solene e respeitável nulidade.

Filho: — Meu pai, o senhor convenceu-me. Serei medalhão.

Pai: — Aperta-me a mão, meu filho. Começas a ser homem. Vai dormir; amanhã acordarás noutro mundo. Começa por vestir um fato escuro e passeia devagar pela Rua do Ouvidor. Olha para a gente com ar distraído e profundo, como se estivesses a resolver um problema de Estado. Se alguém te cumprimentar, inclina ligeiramente a cabeça, sem pressa. E, acima de tudo, Janjão: não penses. Deixa o pensamento para os outros, e o mundo será teu

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