
Hoje, quarta-feira, 4 de março de 2026, ouvi, novamente, no noticiário, os gritos de “Recua fascista, recua!”, saídos do campus da USP em direção a dois vereadores do PL.
Lembrei-me do ensaio escrito por George Orwell, “O que é o fascismo” publicado em 1944, no jornal britânico Tribune:
“Tal como é usada, a palavra “fascismo” é quase totalmente sem sentido. Na conversação, é claro, é usada de forma ainda mais selvagem do que na imprensa. Já ouvi ela aplicada a agricultores, lojistas, crédito social, castigos corporais, caça à raposa, touradas, o Comitê de 1922, o Comitê de 1941, Kipling, Gandhi, Chiang Kai-Shek, homosseualidade, transmissões radiofônicas de Priestley, albergues da juventude, astrologia, mulheres, cachorros e não sei o que mais”.
Quando Orwell escreveu “O que é o fascismo”, Hitler e Mussolini ainda estavam no poder e a Segunda Guerra Mundial acontecia. O raciocínio dele é simples: quando uma palavra passa a designar coisas tão diferentes — agricultores, Gandhi, homossexualidade, mulheres, astrologia, cachorros etc. — ela deixa de descrever um fenômeno e passa a expressar apenas desaprovação.
“Fascista”, nesse emprego, começa a significar simplesmente: aquilo de que eu não gosto.
Ele menciona uma pesquisa americana que fez essa pergunta a cem pessoas. As respostas foram de um extremo ao outro: de “democracia pura” a “diabolismo puro”.
Há uma ironia histórica importante. Orwell era um homem de esquerda, socialista democrático e ferozmente antifascista. Portanto, ele considerava o fascismo uma ameaça real e incomodava-o ver a palavra banalizada. Se tudo é fascismo, torna-se mais difícil reconhecer o fascismo propriamente dito.
É também uma advertência sobre propaganda. Palavras políticas carregadas emocionalmente podem deixar de servir para explicar a realidade e passar a servir para desqualificar o adversário.
Posso, por exemplo, substituir “fascista” por “comunista”, “golpista”, “extremista”, “negacionista”, “autoritário” só para insultar um adversário ou, no ambiente moderno, o inimigo.
A banalização de conceitos pode favorecer aquilo que pretendemos combater. Se chamamos qualquer comportamento desagradável de fascista, negacionista ou golpista, o verdadeiro autoritarismo pode aparecer diante de nós sem que tenhamos instrumentos conceituais suficientemente precisos para reconhecê-lo.
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