Lembram de Arnaldo Jabor? E do Lilico tocando o bumbo na Praça é Nossa?
As crônicas Jabor não ofereciam conforto moral, nem anestesiavam o público. “Tempo bom, que não volta mais…saudades…
O jornalismo crítico cedeu lugar ao jornalismo de enquadramento.
O empobrecimento do debate acompanha a consolidação de uma narrativa segundo a qual os fatos importam menos do que a forma como são contados.
O escândalo perde força, a indignação se esgota rapidamente e a repetição substitui o questionamento. O público é conduzido e não provocado.
Por isso vale voltar ao Jabor com a leitura de “Pornopolítica – paixões e taras na vida brasileira”, livro que reúne algumas das crônicas dele.
Ofereço-lhes a indicação de uma em especial, “O governo que desmoralizou o escândalo”, sobre o primeiro governo Lula.
Jabor descreve com precisão cirúrgica o mecanismo que se tornaria recorrente: corrupção sistêmica, provas abundantes e uma estratégia permanente de negação. Tudo era relativizado.
O ponto central do texto não é apenas a denúncia, mas o efeito político da impunidade. Quando o escândalo torna-se natural deixa de escandalizar; a transgressão vira método e a negação, política de Estado.
O governo não se explica; se vitimiza. Não responde; acusa. Não corrige; normaliza.
Ao encerrar a crônica, Jabor escreveu uma frase que soava quase provocativa, mas preventiva: “O Lula reeleito será a prova de que os delitos compensam”.
Os anos seguintes trataram de transformar a provocação em constatação. Lula foi reeleito, elegeu Dilma duas vezes e retornou ao poder pela terceira vez.
Diante disso e dos fatos que, todos os dias e todas as horas, chegam até nós, é possível dizer que Arnaldo Jabor poderia receber o apelido de “mãe Dinah”?
A política ensina. O povo brasileiro é que custa a aprender.


