FHC.
Sem comentar, por totalmente desnecessário, só para a reflexão de quem terá, com consciência, tomar a decisão de escolher o próximo presidente, transcrevo uma pequena parte da Introdução da Tetralogia “Diários da Presidência”, de Fernando Henrique Cardoso:
“…Se depreende da leitura dos Diários o intricado jogo do poder: o desgaste na relação do presidente com os partidos, o jogo muitas vezes clientelístico, do qual o presidente, mesmo resistindo, não escapa. Se o Executivo quiser obter maioria para aprovar as leis num sistema partidário-eleitoral que elege o chefe do Executivo com mais de 50% dos votos (no primeiro turno, no meu caso; no segundo, no caso dos demais presidentes) mas cujo partido beira apenas os 20% do Congresso, as alianças se impõem.”
O presidente se vê obrigado a buscar apoios. No meu tempo as alianças eram feitas para obter os resultados que eu acreditava necessários para o país avançar, as reformas da Constituição, que exigiam maioria de dois terços de cada Casa. Chamava-se a esse arranjo de “presidencialismo de coalizão”. Pouco a pouco houve uma degradação do processo. Fazem-se as alianças não só com troca de cargos como utilizando-se práticas mais discutíveis e perdendo-se a agenda: chama-se a isso de “presidencialismo de cooptação”.
Essa contingência se torna paradoxal na tentativa de modernização das práticas e costumes: para o “novo” avançar, o apoio do atraso é requerido. A armadilha ficou quase intransponível no meu caso (e daí em diante), porque meu adversário eleitoral, derrotado duas vezes, simbolizava “os pobres” e a “esquerda”, e fazia a crítica das alianças feitas pelo PSDB e de sua alegada tendência ao “neoliberalismo”, embora o PT fosse mais próximo do PSDB por suas propostas do que muitos dos partidos com os quais nos aliamos para obter a maioria no Congresso. Tal paradoxo se acentuou depois que o PT ganhou as eleições presidenciais e escolheu fazer recair sobre mim e o PSDB o peso de sua crítica. O desejo de vitórias eleitorais soou mais forte do que os compromissos programáticos.”
“O que os franceses chamam de “politique politicienne”, as futricas, algumas vezes são, de fato, choques de opinião que ecoam interesses ou visões distintas. Outras vezes são apenas desencontro de ambições e de interesses que aparecem no cotidiano como se fossem desavenças entre as equipes de governo ou deste e de seus aliados com as oposições.
Outro ponto importante é a relação entre o governo e a opinião pública, e entre aquele e a opinião nacional, na distinção que vem dos tempos de Pedro II.”
“Em nosso presidencialismo, ao modo do que foi o antigo Poder Moderador, as cartas principais estão na mão do presidente. Não por acaso se fala de “presidencialismo imperial”. Mas atenção: no sistema democrático, tanto o Legislativo, onde os partidos se aninham, como os Tribunais e o que em espanhol se costuma chamar de “os poderes fáticos” — isto é, permanentes, dos empresários, dos sindicatos, enfim, dos donos do poder formalmente não políticos — restringem a ação presidencial.
Em nosso sistema atribuem-se ao presidente muitas esferas de decisão e influência: na política externa, na relação com os empresários e com os assalariados, na direção efetiva da administração.
Ademais, cai sobre seus ombros a responsabilidade de manter coeso o país, de motivar o povo, de administrar muito do cotidiano e ainda de se relacionar com os partidos, a mídia e o que mais seja.
A efetividade desse suposto superpoder é, entretanto, muito relativa. Quanto mais complexa a sociedade, menos capacidade de decidir e de tornar efetiva a decisão têm os presidentes, apesar de ser indubitável que contam com muita força dissuasória e de comando. Daí que o presidente sinta e se queixe, como eu nestes Diários, do cansaço no exercício do cargo e da “solidão do poder”.
Em mais de um trecho eu me refiro a que vivia cercado de gente e, ao mesmo tempo, em decisões cruciais, amargava, ou desfrutava, o fato de haver de tomá-las sozinho. É assim mesmo e isso faz parte do que se chama poder, mesmo quando democrático.
Mas nem tudo são espinhos.
Basta ler estes Diários para ver que eu senti muitas compensações e tive muitas alegrias. Sentia as consequências positivas da estabilidade econômica, cujos pressupostos começaram no governo de Itamar Franco, a quem muito devo. Percebi o prestígio crescente do Brasil no exterior, dei início a uma reforma do Estado, começamos a superar nossos males sociais históricos, na saúde, na educação, na reforma agrária, na distribuição de renda. Tudo isso oscilando, conforme as conjunturas econômicas e as dificuldades de manejar o câmbio, as taxas de juros, de responder positivamente à responsabilidade fiscal necessária. E também conforme as oscilações do jogo político.”


