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O music hall britânico e a guerra

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Há canções que são compostas para a guerra. E há canções que a guerra toma para si.

It’s a Long, Long Way to Tipperary pertence ao segundo grupo. Tornou-se uma das músicas mais identificadas com a Primeira Guerra Mundial, atravessou gerações como uma canção de soldados e ainda hoje é capaz de evocar imagens de homens uniformizados marchando para o front.

Mas não nasceu para isso.

Quando Jack Judge e Harry Williams lançaram a canção, em 1912, a Europa ainda não havia mergulhado na catástrofe que começaria dois anos depois. A música pertencia ao universo do music hall britânico — o entretenimento popular que reunia música, humor, dança, acrobacias e pequenas cenas teatrais diante de plateias que frequentemente cantavam junto com os artistas. A partitura publicada naquele ano traz os nomes de Judge e Williams e uma história que nada tinha de militar.

Seu personagem é Paddy, um irlandês que chega a Londres.

A letra brinca com o velho imaginário de que as ruas da grande cidade seriam pavimentadas de ouro. Paddy descobre Piccadilly, o Strand, Leicester Square — alguns dos lugares mais conhecidos da capital britânica. Londres está diante dele, com suas luzes, seus divertimentos e suas promessas.

Mas seu coração não está ali.

Está em Tipperary.

Tipperary é uma cidade irlandesa e também dá nome ao condado onde está situada. Na canção, ela representa muito mais do que um ponto no mapa. É o lugar para onde Paddy deseja voltar, porque lá está Molly, “a garota mais doce” que ele conhece.

E então surge o refrão que o mundo inteiro acabaria conhecendo: é um longo, longo caminho até Tipperary; adeus, Piccadilly; adeus, Leicester Square — meu coração está lá.

A história original é divertida. Paddy escreve para Molly. Molly responde avisando que Mike Maloney quer se casar com ela e que, se Paddy pretende evitar isso, é melhor deixar Londres e voltar para casa. Não há trincheiras. Não há canhões. Não há inimigos. Não há heroísmo militar.

Há apenas um homem longe de casa e uma mulher esperando — talvez não por muito tempo.

Então veio 1914.

A Europa entrou em guerra, e aquela pequena canção de music hall encontrou um destino que seus autores dificilmente poderiam imaginar.

Em 13 de agosto de 1914, pouco depois do início da guerra, soldados dos Connaught Rangers, um regimento irlandês do Exército britânico, desembarcaram na França e marcharam por Boulogne cantando It’s a Long Way to Tipperary. O episódio foi observado pelo correspondente George Curnock e divulgado pelo Daily Mail dias depois. A história se espalhou, outros soldados passaram a cantar a música e, em poucos meses, ela estava indissociavelmente ligada à guerra.

Em novembro daquele mesmo ano, o célebre tenor irlandês John McCormack fez uma gravação da canção. A Library of Congress conserva o registro, datado de 23 de novembro de 1914. A guerra e a nascente indústria fonográfica ajudariam a levar Tipperary para muito além da Irlanda.

E aqui, para mim, está a melhor parte da comparação: os soldados não estavam cantando sobre a guerra, sobre voltar para casa. 

Uma canção criada para divertir plateias adquirira, sem que uma palavra precisasse ser modificada, um significado completamente diferente. Paddy já não precisava ser apenas o irlandês perdido em Londres. Poderia ser qualquer soldado distante de sua cidade, de sua família ou da mulher que amava.

Tipperary também deixava de ser apenas Tipperary. Passava a ser a casa.

A distância mencionada no refrão tampouco precisava mais ser medida em quilômetros. Para um homem que atravessava o Canal da Mancha em direção a uma guerra cujo tamanho ninguém ainda compreendia, o “longo, longo caminho” de volta para casa poderia parecer infinitamente maior.

Há ainda uma ironia histórica importante. Diferentemente de muitas músicas militares, Tipperary não convocava ninguém à batalha, não exaltava o inimigo derrotado nem prometia glória aos combatentes. Sua atenção estava voltada para a casa e para a saudade dos que ficaram. Talvez esteja aí uma das razões de sua sobrevivência.

Guerras são narradas por generais, batalhas, tratados, mapas e números. Mas quem as vive são seres humanos. Homens e mulheres  sentem medo; frio; saudade. Pensam nas mães, nos esposos, nas mulheres, nos filhos, nos amigos e nas pequenas coisas que deixaram para trás.

E cantam: It’s a Long, Long Way to Tipperary! Tipperary já não precisa ser uma cidade irlandesa. Tipperary é o nome que cada um de nós pode dar ao lugar para onde deseja voltar.

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