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O Bonaparte do Kassab

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A tragédia das alianças puramente pragmáticas é que elas costumam devorar seus arquitetos.

Sieyès descobriu isso tarde demais, depois de imaginar que poderia utilizar Napoleão Bonaparte como instrumento de uma engenharia política concebida nos bastidores. 

Gilberto Kassab talvez esteja diante de um dilema semelhante. E Lula pode descobrir que emprestar força eleitoral não significa conservar o controle sobre quem dela se beneficia.

O trio formado em 1799 por Emmanuel-Joseph Sieyès, Roger Ducos e Napoleão Bonaparte é um dos exemplos mais acabados de como o cálculo político pode escapar ao controle de seus formuladores.

Sieyès conhecia as engrenagens institucionais e pretendia substituir o desgastado Diretório por uma ordem constitucional mais estável. Faltava-lhe, porém, uma “espada”: alguém dotado da força e do prestígio que os arquitetos civis da conspiração não possuíam.

Bonaparte parecia o homem adequado. Jovem, popular e coberto pela glória militar, forneceria a energia necessária para derrubar o regime e implantar o novo arranjo. Sieyès acreditava que o general serviria ao projeto. Não percebeu que, ao entregar-lhe a força indispensável ao golpe, transformava o instrumento em senhor da obra.

Ducos, político adaptável e pragmático, limitou-se a perceber a direção dos ventos e a posicionar-se ao lado dos vencedores.

Depois do 18 de Brumário, Bonaparte não aceitou o lugar que lhe haviam reservado. Interveio na elaboração da Constituição do Ano VIII, concentrou o poder no cargo de primeiro-cônsul e relegou Sieyès e Ducos a posições honoríficas. O regime concebido para estabilizar a República abriu caminho para o Consulado vitalício e, posteriormente, para o Império.

A espada dispensou a mão que pretendia manejá-la.

É sob a luz dessa lição que se deve observar a relação entre Gilberto Kassab, Lula e Eduardo Paes. Não porque o Brasil contemporâneo reproduz o 18 de Brumário, mas porque as analogias históricas ajudam a reconhecer padrões de comportamento. O que importa, neste caso, é o padrão do líder que utiliza as alianças responsáveis por sua ascensão e as abandona quando já não precisa delas.

Nessa leitura, o Bonaparte não é Lula. É Eduardo Paes.

Kassab, o arquiteto

Gilberto Kassab ocupa o lugar mais próximo ao de Sieyès. Sua força não está na mobilização das ruas, mas na arquitetura partidária. Ele conhece a máquina, distribui posições, aproxima interesses incompatíveis e transforma fragmentação em poder.

O PSD de Kassab tornou-se uma engrenagem capaz de conviver com governos de orientações distintas. Mais do que sustentar uma identidade ideológica rígida, o partido procura ocupar o centro do sistema e tornar-se necessário a qualquer maioria.

A candidatura de Eduardo Paes ao governo do Rio expressa essa lógica. Kassab pretende oferecer-lhe uma aliança suficientemente ampla para atravessar as fronteiras da polarização nacional. Já admitiu, inclusive, a possibilidade de múltiplos palanques presidenciais em torno de Eduardo Paes.

A inversão é reveladora: não seriam os candidatos ao Planalto que conduziriam o palanque fluminense; seriam eles que procurariam abrigo no palanque de Eduardo Paes. O beneficiário da arquitetura começa a tornar-se maior do que o arquiteto.

Lula, o fiador eleitoral

Lula não corresponde a Ducos nem a Sieyès. Sua dimensão política impede uma equivalência tão simples. Ele possui história, votos, máquina federal e ligação direta com parcelas expressivas do eleitorado. Está, porém, na etapa final de sua trajetória política e comanda um partido que ainda não encontrou quem possa sucedê-lo à altura.

No Rio, Lula funciona como fiador eleitoral de Eduardo Paes. Empresta-lhe legitimidade popular, aproxima-o do eleitorado de esquerda e dificulta o surgimento de uma candidatura própria do PT. Esse empréstimo, entretanto, não assegura fidelidade futura.

Ao apoiar Paes contra adversários considerados mais perigosos, Lula fortalece um governante que, instalado no Palácio Guanabara, terá território eleitoral, máquina administrativa e ambições próprias.

A trajetória de Paes é marcada por aproximações, rupturas e mudanças de campo. Cesar Maia, Sérgio Cabral e o próprio Lula já experimentaram as conveniências e o resultado da obstinação de Eduardo. Ele aproxima-se de quem controla os recursos necessários a cada etapa e se afasta quando a associação deixa de ser útil.

Sua habilidade não consiste em permanecer fiel a uma coalizão, mas em fazer-se necessário a coalizões diferentes — por vezes, contraditórias.

É justamente aí que Eduardo se aproxima de Bonaparte: na capacidade de receber dos outros os meios de ascensão e convertê-los em poder próprio.

A grande ilusão

Para conquistar o governo do Rio, Paes precisa da estrutura de Kassab, do eleitorado lulista, da capilaridade de lideranças conservadoras e da tolerância de forças contraditórias. A candidatura dele transforma-se no ponto de encontro de interesses incompatíveis, porque cada participante acredita que poderá influenciá-lo depois da vitória.

Essa é a grande ilusão.

Uma vez eleito, Paes deixará de ser apenas o candidato de Kassab e o aliado regional de Lula. Governará o terceiro estado mais populoso do país, controlará uma máquina política poderosa e poderá apresentar-se como liderança nacional capaz de dialogar com a esquerda, a direita e o centro.

Alianças estritamente pragmáticas carregam uma cláusula invisível de dissolução: duram enquanto todos precisam uns dos outros. Quando um dos aliados adquire força suficiente para caminhar sozinho, a lealdade deixa de ser virtude e passa a ser custo.

Sieyès imaginou que controlaria Bonaparte porque havia concebido o novo regime. Descobriu que o poder não pertence necessariamente a quem desenha o tabuleiro, mas a quem termina ocupando-o.

No Rio, Kassab pode construir a aliança e Lula pode fornecer parte decisiva dos votos. Resta saber o que sobrará da aliança quando Eduardo Paes já não precisar de seus fiadores.

O 18 de Brumário oferece uma resposta incômoda: o instrumento escolhido para executar o plano pode terminar no comando — depois de descartar aqueles que lhe abriram o caminho. 

A melhor estratégia para livrar Gilberto Kassab e Lula dos dissabores que Maia e Cabral já conhecem está nas mãos dos eleitores. Uma derrota ao Eduardo Paes fará um bem danado aos seus aliados de agora, ao estado e ao próprio povo. 

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