Foi uma semana bem complicada aquela última semana de julho de 1996. Eu estava há pouco tempo na Superintendência Estadual do INSS, nomeado em março e empossado em abril. Iniciei a semana em reunião com os gerentes dos postos do Rio.
Encerrada a minha exposição e dos gerentes-regionais, a chefe do posto de Vila Vintém me fez um apelo: “O senhor poderia ir visitar o posto…Eu preciso muito que o senhor vá até lá”. E fui no dia seguinte. Cheguei lá às 10 horas. Era o melhor posto de toda a rede em estrutura física e não se tinha conhecimento de filas, uma praga no INSS.
Assim que entrei no posto, todo num pavimento só, situação rara, um garoto, que me pareceu ter uns 13 ou 14 anos, falou alguma coisa perto de mim. Eu voltei para ouvir melhor e ele repetiu.
- O Celsinho não gosta de ter autoridade por aqui. Pode ir embora…
- Quem é Celsinho?
- O dono do morro.
- Ele está preso, não.
- Tá sim, mas manda da cadeia.
A chefe do posto virou-se para mim e disse: “o senhor desculpe, mas aqui é assim. Faz seis meses que eu peço para me ajudarem aqui, mas ninguém da superintendência me ouve, nem vem aqui. Faz poucos dias que dois homens vieram na fila do lado de fora do posto, onde algumas pessoas esperavam a hora de abrir, e atiraram num homem. Foi uma loucura, chefe”, e continuou a falar sem parar. Terminei a visita. Na saída vi uns garotos e uma menina no muro fumando alguma coisa.
No dia seguinte, me reuni com toda a equipe do patrimônio do INSS e da DATAPREV, numa reunião de emergência. Avisei que fecharia o posto. O chefe do patrimônio me alertou que o INSS tinha um conjunto de salas e uma estrutura ali perto, fechada desde a inauguração do posto de Vila Vintém, “há coisa de dois anos”, me disse.
Determinei que as salas fossem preparadas para receber a equipe do posto e os equipamentos. Eu exigi que a mudança acontecesse antes do horário da abertura do posto e que fosse de surpresa, para evitar represália. Mudamos. A população fez manifestação na frente do prédio da Superintendência, na Pedro Lessa. Desci para falar com a turma. A manifestação se dispersou.
Uma semana depois, no dia 3 de agosto, sábado, o jornal O Globo noticiou:
“O INSS fecha o posto de benefícios da Vila Vintém depois de ameaças de traficantes.
Bandidos usavam o prédio e exigiam que seguranças andassem desarmados.
Há quatro anos os traficantes da Vila Vintém, conjunto de casas populares em Realengo, ditavam regras, horários e normas de funcionamento do Posto de Benefícios do INSS vizinho ao local.
Os seguranças tinham de andar desarmados, o prédio ficava aberto durante a noite para servir de esconderijo e o terreno do próprio INSS, ao lado do posto, não podia ser usado.
Ontem, o superintendente do instituto no Rio, Jackson Vasconcelos, decidiu acabar de uma vez com essa situação: fechou o posto e garantiu que só vai reabri-lo caso o Governo estadual lhe dê segurança. O último incidente, que acabou antecipandó a decisão da direção do INSS, foi o assassinato no início desta semana de um homem, provávelmente da quadrilha de traficantes, na porta do posto, em hora de grande movimento.
- O posto está definitivamente fechado, a menos que o estado me dê condições de reabri-lo — afirmou ontem o superintendente, que assumiu o cargo há 90 dias e que, numa das visitas que fez ao posto, chegou a ver homens armados em cima do muro, vigiando o movimento.
Anteontem, Jackson Vasconcelos enviou comunicado oficial do fechamento do posto à Secretaria de Segurança do estado e ao governador em exercício, Luiz Paulo Corrêa da Rocha. Segundo ele, uma das exigências dos traficantes tinha sido a desocupação do terreno vizinho ao posto, que também pertence ao INSS.
A área deveria ficar sempre vazia e costumava ser usada pelos bandidos, que chegavam a usar drogas no local. Jackson Vasconcelos garante que diversas vezes o INSS pediu ajuda da polícia e que o comando do 14o Batalhão (Bangu) tinha conhecimento dos fatos.
“Enquanto não tivermos segurança, não voltaremos” — afirma o superintendente.
O comandante do 14- BPM, tenente-coronel João Carlos Ferreira, no entanto, nega que tenha sido procurado pela direção do posto em algum momento. Ele diz ter estranhado o fechamento do posto, já que a polícia vem realizando operações diárias na Vila Vintém, prendendo inclusive um dos chefes do tráfico local em janeiro, Celsinho.
Ontem, segundo ele, os policiais prenderam mais um homem, desta vez com cinco quilos de cocaína pura. “ Para mim não há problemas ali. Andamos na Vila Vintém como se estivéssemos no quintal de casa — disse o comandante.
O atendimento dos 25 mil pensionistas cadastrados no posto deverá ser prejudicado, já que, só na próxima semana o superintendente do INSS saberá para onde serão transferidos. Também ainda não decidiu onde serão alocados os 51 funcionários que trabalhavam no local.
Ontem, apenas os seguranças passaram o dia no prédio. Desarmados, eles estavam assustados. Alguns funcionários do INSS apareceram só na parte da manhã para ajudar a recolher os equipamentos e os processos. Já os moradores da área estavam revoltados com o fechamento do posto considerado modelo pela direção do INSS.
Ontem, o general Nilton Cerqueira, secretário de Segurança Pública, disse que não tinha conhecimento do que estava acontecendo na Vila Vintém. Ele afirmou que vai conversar com o comandante do 14 a BPM para se informar”.
No dia do fechamento, recebi uma ligação do governador Marcello Alencar:
- Não foi admitir esse joguinho. Você é aliado do César Maia e está fazendo isso para desgastar o meu governo.
Era ano de eleição municipal. César Maia, prefeito do Rio e eu filiado ao partido dele, o PFL. Não por causa dele, pois ele entrou bem depois de mim.
Respondi:
- Governador, lamento. Não vou rever a decisão. Mas, se o senhor acredita que o lugar é mesmo seguro, podemos assinar um convênio ou algo parecido e o senhor ocupa o prédio para, por exemplo, colocar lá uma unidade da PM ou uma creche para os filhos dos policiais.
- Vou exigir a sua saída.
- E eu lhe serei eternamente agradecido.
O posto continuou fechado e eu só deixei a Superintendência dois anos depois, já com a minha relação política com Marcello Alencar restabelecida.


