Ontem, tirei uma hora do meu dia para assistir o discurso do polêmico Steve Bannon no Hillsdale College. Valeu a pena, pois o cara é mesmo muito bom na prática da comunicação estratégica.
Ele foi estrategista-chefe da Casa Branca durante os primeiros meses do governo de Donald Trump, em 2017, e dizem que ele é ou foi professor de Carlos Bolsonaro. Pelo menos há registro da participação dele na campanha de Jair Bolsonaro em 2018.
Ao fazer referência à derrota de Donald Trump em 2020, Steve Bannon afirmou: “Não há dúvida de que ele venceu..” E diz que Donald Trump poderia, após ser roubado na eleição, ter desistido da política para ser feliz com a esposa e com os negócios pessoais. Mas, não. “Ele tomou a decisão de voltar, assim como Cincinnatus largou o arado para salvar Roma”, afirmou Bannon.
Quem foi Cincinnatus? Lucius Quinctius Cincinnatus foi membro da aristocracia romana. Quando o filho, Caeso, foi condenado por Roma, Cincinnatus retirou-se da política para uma vida simples no campo.
Em 458 a.C., Roma enfrentou uma ameaça militar dos équos. O Senado nomeou um ditador — cargo legítimo, previsto nas instituições republicanas, com poderes extraordinários por tempo limitado (normalmente seis meses). Cincinnatus foi convocado para a missão, largou o arado e assumiu a função.
Cincinnatus derrotou o inimigo, renunciou ao cargo antes do prazo máximo e retornou à vida privada. Anos depois, em 439 a.C., foi chamado outra vez para enfrentar mais uma crise, cumpriu o papel, renunciou novamente à vida pública e voltou para o “arado”.
Contudo, quem se der ao trabalho de conhecer melhor a história de Cincinnatus, não compra a comparação que Steve Bannon faz entre Donald Trump e ele, pois o que tornou Cincinnatus um símbolo de honra não foi o poder que exerceu, mas o poder que devolveu.
Na tradição romana, Cincinnatus encarna o ideal dos antepassados — baseado em: disciplina cívica; serviço à República; austeridade e subordinação do indivíduo ao bem comum. Tudo o que não cabe na personalidade de Donald Trump.
No século XVIII, os revolucionários americanos fundaram a “Sociedade dos Cincinnati”, em homenagem a esse modelo de liderança republicana — tendo como referência maior George Washington, que também renunciou voluntariamente ao comando militar e limitou seu próprio tempo na presidência. Uma decisão que já se sabe, Donald Trump jamais tomará.


