O senhor Anton Karl Biedermann, que está com 102 anos de idade e tem mais juízo na cabeça e uma proposta melhor do que todos os demais candidatos a presidente. Confira:
Em entrevista concedida à jornalista Giane Guerra, no Canal Zero Hora, o empresário Anton Karl Biedermann, aos 102 anos de idade, com boa saúde e plena lucidez, fez uma reflexão sobre a trajetória política e econômica do Brasil, baseada em quase um século de experiências pessoais.
“Fico, às vezes, meio desanimado. É lógico que isso acontece com todas as pessoas. Mas eu já vi muita coisa na vida, principalmente na parte política. Eu gosto muito de história. O que eu já vi é impressionante. Começou com a Revolução de 30, do Getúlio. Eu tinha seis anos e vi, na frente da minha casa, vários revolucionários armados, com espingardas e fuzis, correndo a cavalo em direção ao quartel de Rio Grande, que ficava perto da minha casa.
Foi a primeira grande lembrança que tive e nunca mais esqueci. É lógico que, com seis anos, a gente fica impressionado com aquilo. E teve o tiroteio no quartel; ele ficou todo marcado pelos tiros e permaneceu assim durante muitos anos. Depois vieram outros acontecimentos que sempre acompanhei.
Veio o governo Getúlio, depois sua queda, os governos que o sucederam, a ditadura militar, a redemocratização e, por fim, isso que estamos vendo hoje.
E o que seria isso?
Isso é quase um caos.
Por que o senhor diz isso? A que o senhor está se referindo?
Qualquer lado para o qual se olha, há roubo. E roubo em grande escala, em escala gigantesca. Basta ver os casos mais recentes. Quanta gente está envolvida nas emendas parlamentares. Imagina quantas milhares de pessoas participam disso e como dominam todo o ambiente.
Veja a dificuldade até para instalar uma CPI, mesmo que ela depois não seja eficiente. Porque há muita, muita gente envolvida. Tenho a impressão de que o crime organizado se apossou das principais estruturas do poder público no país: Justiça, Executivo e Legislativo.
Uma situação como essa o senhor nunca tinha visto?
Não. Nunca. Já houve muita coisa neste país. Tivemos o período anterior à Revolução de 1964. É difícil falar nisso, porque são capazes de me apedrejar na rua. Mas o governo de João Goulart foi, na minha opinião, um governo horroroso, semelhante a esses que estão aí hoje. Tanto que não foi o Exército que quis a revolução. Foi o povo brasileiro, que não suportava mais aquela situação. Agora, porém, parece que as pessoas estão mais conformadas. Ninguém dá muita importância. Quase tratam isso como algo banal.
Estamos em período de campanha eleitoral. O senhor entende que a política hoje oferece opções piores do que em outros momentos?
Conversando com um grande empresário, ele me disse uma frase que ficou gravada na minha memória. Disse que não fomos nós que escolhemos estar diante de duas opções. Colocaram apenas uma alternativa: votar no menos ruim. E o menos ruim é muito ruim. Para mim, isso define tudo.
O que o senhor acha que poderia ser feito?
O Brasil precisaria começar eliminando a corrupção. Não sei como isso seria possível, mas seria fundamental. Depois, precisaria ter pessoas aptas, conhecedoras, verdadeiros estadistas governando este país.
Eu ouvi a atual presidente dizer que é preciso gastar para crescer. Eles insistem nisso. Vi isso ser repetido várias vezes. Se fosse assim, não existiriam pessoas pobres nem países pobres. Bastaria gastar para crescer. Mas não é assim. Existe uma limitação financeira. Às vezes tenho a impressão de que nossos governantes e legisladores nunca aprenderam a aritmética do colégio. Não se pode gastar mais do que se recebe.
Eventualmente, uma empresa pode fazer um investimento acima da sua capacidade, desde que esse investimento traga retorno no momento oportuno. Isso é possível. Mas não se pode ir além disso.
Quando o senhor fala em estadista, em que sentido?
No sentido de pensar no país. O que nós precisamos? Precisamos de uma educação adequada. A educação só piorou ao longo dos anos. E, sem educação, não se vai a lugar nenhum.
Também precisamos de pessoas que entendam que o Estado não pode gastar mais do que arrecada. Caso contrário, compromete toda a geração futura.
O importante seria que a parte melhor da população se unisse para combater a parte pior e a excluísse. Que as pessoas se exponham, não se encolham, porque o mal está dominando. As pessoas se encolhem por medo, mas não podem fazer isso, senão os maus ocupam todos os espaços.
Eu sempre cito uma frase da economia: a moeda má expulsa a boa. Isso quer dizer que, quando existem duas moedas, uma boa e outra ruim, só a ruim circula, porque todos querem guardar a boa.
Na política brasileira acontece algo semelhante: o político mau expulsa o bom. É muito difícil ver uma pessoa realmente boa conseguir crescer nesse ambiente.”


