Gente, uma das vantagens que o trabalho com a política me oferece é a obrigação de conhecer vários assuntos com profundidade. Os projetos políticos eu vejo representados por livros e autores. É muito legal.
Por isso, nas minhas estantes tenho livros que tratam de escolas, favelas, policiais, ambiente, filosofia, marketing, oratória, futebol e muito mais.
Em razão da eleição deste ano, voltei ao livro “As religiões no Rio”, de João do Rio e adquiri por um preço expressivo, o livro “Le Candomblé de Bahia”, de Roger Bastide, publicado originalmente em 1958. O livro é o resultado de anos de pesquisa no Brasil, especialmente na Bahia.
Roger combina sociologia, antropologia e fenomenologia religiosa e rompe com leituras folclorizantes ou meramente históricas do candomblé. Ele toma-o como um sistema religioso autônomo, dotado de coerência e profundidade filosófica. O autor analisa o universo simbólico do candomblé, destacando: a organização dos orixás; a noção de destino e personalidade e a relação entre mundo visível e invisível. O estudo do transe e da possessão está presente.
Bastide mostra que a possessão não é “histeria” ou desordem, mas uma forma culturalmente estruturada de experiência religiosa. O corpo é o meio pelo qual o divino se manifesta e o transe é uma linguagem simbólica, não uma patologia. O candomblé organiza o mundo em espaços consagrados (terreiro) e tempos rituais (festas, iniciações), diz Roger. Esse ordenamento cria uma realidade paralela, onde o sagrado reorganiza o cotidiano. Mais do que descrever rituais, o livro revela uma forma de estar no mundo, onde corpo, mito e sociedade se entrelaçam.
O autor não está interessado em folclore, exotismo ou curiosidade etnográfica — essas são distrações típicas de uma mentalidade que olha o outro de cima. Ele reconhece inteligência onde o olhar colonial só enxergava superstição. Isso muda tudo. A tradição dominante, sobretudo europeia, sempre tratou as religiões afro-brasileiras como: degenerações culturais, resquícios arcaicos e expressões irracionais. Bastide rompe com isso de maneira frontal.
Ele demonstra que o candomblé não é uma sobra — é uma estrutura completa de mundo. Há ali: ontologia (o que existe), a ética (como viver) e a cosmologia (como o universo se organiza). Ou seja: aquilo que o Ocidente chama de “filosofia”, mas se recusa a reconhecer fora de si.
O brasileiro, segundo Bastide, não resolve suas contradições — ele as administra: é católico e do candomblé, vive na modernidade e no mito e transita entre mundos sem precisar conciliá-los. Isso não é fraqueza cultural, mas sim uma forma própria de organização da realidade. Enquanto a tradição europeia busca coerência total, o Brasil opera por equilíbrio instável. está aí uma pista incômoda: a obsessão pela coerência pode ser menos sinal de racionalidade e mais de rigidez.


