Da demagogia à governança: o desafio das favelas brasileiras no século XXI
Em 1964, o sociólogo Carlos Alberto de Medina publicou “A Favela e o Demagogo”. Medina tratou da relação entre lideranças políticas e moradores das favelas do Rio de Janeiro. Seu objeto de estudo era o clientelismo: a troca de favores, promessas e benefícios imediatos por voto. A ausência do Estado era frequentemente preenchida pela presença episódica do político.
Sessenta anos depois, o cenário mudou. A questão central não é mais o clientelismo eleitoral, mas o interesse do Estado, representado pela Prefeitura do Rio, de exercer autoridade sobre os territórios da cidade, para garantir segurança, justiça, mobilidade, educação, saúde, infraestrutura e liberdade econômica.
O que significa o cidadão reconhecer o Estado, e não o crime, como a principal referência de autoridade
Durante décadas discutimos como reduzir a pobreza nas favelas. Hoje, precisamos descobrir também como fortalecer a presença institucional do Estado sem reproduzir intervenções exclusivamente repressivas ou descontínuas.
A experiência demonstra que territórios vulneráveis não se transformam apenas com operações policiais, nem apenas com programas sociais isolados. A construção de governança depende da integração entre segurança pública, planejamento urbano, regularização fundiária, infraestrutura, educação, desenvolvimento econômico e fortalecimento das instituições locais.
E continuidade dos programas.
Um dos maiores obstáculos das políticas urbanas brasileiras é sua baixa capacidade de sobrevivência. Projetos estruturantes frequentemente são interrompidos antes de produzirem resultados. É o caso do Favela-Bairro e dos planos estratégicos.
O que foi feito deles? Em que prateleira o Eduardo Paes arquivou tudo isso?
Talvez a principal contribuição de Carlos Alberto de Medina continue sendo a percepção de que a favela nunca foi um espaço à margem da política. Pelo contrário, sempre esteve profundamente integrada às
disputas pelo poder.
A diferença é que, seis décadas depois, a pergunta deixou de ser apenas “como o político chega à favela?”. Hoje, a questão mais relevante parece ser outra: como o Estado pode exercer governança de forma contínua, legítima e eficaz, garantindo que nenhum outro poder substitua as instituições democráticas?
Responder a essa pergunta talvez seja um dos maiores desafios das políticas públicas brasileiras nas próximas décadas. Mais do que levar serviços, será preciso consolidar cidadania. E mais do que vencer eleições, será indispensável fortalecer a democracia onde ela é colocada à prova todos os dias.


