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Discurso demolidor. Claudia Sheinbaum

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A Presidente do México, Claudia Sheinbaum, presente à IV Reunião “Em Defesa da Democracia” ocorrida em Barcelona há poucos dias, falou algo que merece ficar registrado nos anais da História das Américas. O encontro teve o objetivo de debater as estratégias das forças progressistas contra o avanço do extremismo e do populismo global, e temas como justiça social e o impacto das redes sociais na democracia.

Compartilho a íntegra com vocês.

“Venho à Cúpula pela Democracia em nome de um povo trabalhador, criativo e lutador, mas, acima de tudo, profundamente generoso. Um povo que aprendeu a resistir sem odiar, a defender seus direitos sem deixar de respeitar os demais, a acreditar na paz mesmo quando a história lhe impôs provas difíceis.

Venho em nome de um povo solidário até na adversidade, profundamente humano, que resiste ao individualismo, que rejeita a discriminação e que se recusa, com dignidade, a olhar o outro ou a outra com desprezo. Venho de um povo que reconhece sua origem nas grandes culturas originárias, aquelas que foram silenciadas, escravizadas e saqueadas, mas que nunca foram derrotadas, porque há memórias que não se conquistam e raízes que nunca se arrancam.

Venho da Pirâmide do Sol, venho de Tláloc, de Huitzilopochtli, de Coatlicue. Venho de uma história milenar que não é passado: é presente vivo em nossas comunidades, em nossas línguas, em nossa forma de olhar o mundo. Venho de um povo com valores espirituais profundos, que sabe que sua história é sagrada, porque nela encontra a força para se levantar, resistir e seguir tecendo com dignidade o seu destino.

Venho do legado de Miguel Hidalgo y Costilla, que em 1810 levantou a voz pela independência e, pouco depois, teve a coragem de declarar a abolição da escravidão. Venho com o legado de José María Morelos y Pavón, que em “Os Sentimentos da Nação” escreveu palavras que ainda estremecem: que a soberania emana do povo, que a indigência e a opulência devem ser moderadas, que a dignidade não admite castas, mas apenas a diferença entre o vício e a virtude.

Venho com o legado da insurgente Leona Vicario, que desafiou seu tempo para defender o direito das mulheres de lutar por sua pátria. Venho com a dignidade de José Fortís de Esquiroz, que nos lembrou que não se deve premiar quem serve à pátria, mas punir quem se serve dela.

Venho coberta pelo legado do Benemérito das Américas, o presidente Benito Juárez, indígena zapoteca, que com os liberais mexicanos separou a Igreja do Estado em meados do século XIX; aquele que defendeu a República diante da invasão estrangeira e que, ao triunfar, nos deixou uma verdade que pertence ao mundo inteiro: “Entre os indivíduos, como entre as nações, o respeito ao direito alheio é a paz.”

Venho coberta pelo legado de Zapata, de Villa, de Madero, de Carranza, de Felipe Ángeles, de Adela Velarde, de Hermila Galindo — mulheres e homens que em 1910 se levantaram não por ambição, mas por justiça; não por poder, mas pelo direito do povo do México à democracia, aos seus recursos naturais e a decidir sobre o seu próprio destino.

Venho coberta pelo legado do general Lázaro Cárdenas, que, quando o mundo fechava suas portas aos republicanos espanhóis, abriu as do México para acolher aqueles que fugiam da dor e da guerra. Venho de um país que abraçou o exílio e transformou a solidariedade em ação.

Venho reconhecendo a valentia de Frida Kahlo, que, mesmo na fragilidade física, soube preencher de cores a luta pela justiça. Venho recordar que o México soube sustentar seus princípios, inclusive na solidão: que levantou a voz contra o bloqueio a Cuba em 1962, quando outros se calaram; que até hoje acredita, falando dessa pequena ilha do Caribe, que nenhum povo é pequeno, mas grande e estoico quando defende sua soberania e o direito a uma vida plena.

Venho também das meninas e dos jovens conscientes que todos os dias lutam por um país livre, democrático e mais justo; de mulheres e homens que acreditam na transformação pacífica, na justiça social e na dignidade humana como princípio universal. Venho orgulhosa do meu povo, de sua história, de sua capacidade de resistir, de compartilhar e de não esquecer aqueles que mais precisam.

Um povo que, em 2018, decidiu que o desenvolvimento democrático existe quando se trabalha pela prosperidade compartilhada — ou, como dizemos no México, “pelo bem de todos, primeiro os pobres”. Venho de um povo que, em 2024, decidiu romper sua história de machismo e elegeu sua primeira mulher presidenta, para que chegássemos todas.

Venho à Cúpula pela Democracia para felicitar meus colegas presidentes que lutam todos os dias por ela. Venho compartilhar o que o México tem como princípios constitucionais, surgidos da sua história, em matéria de política exterior, e que hoje ressoam fortes e claros, mais vivos do que nunca no cenário mundial:

O respeito à autodeterminação dos povos, a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias, o rejeito ao uso da força, a igualdade jurídica dos Estados, a necessidade da cooperação internacional para o desenvolvimento, o respeito aos direitos humanos, a luta permanente pela paz.

Porque, em um mundo ferido pela guerra e pela desigualdade, esses princípios democráticos seguem sendo uma contribuição do México aos povos do mundo, como símbolo de esperança.

Os princípios democráticos também significam liberdade — mas vale a pena perguntar: qual liberdade? A liberdade que defende o conservadorismo? A liberdade de se submeter a interesses externos? A liberdade de transformar as nações em colônias modernas, em nome de mercados sem Estado, que fazem de muitos nada e de poucos, tudo?

Não. Acreditamos que a democracia implica liberdade, mas a liberdade é uma palavra vazia se não for acompanhada de justiça social, soberania e dignidade dos povos.

Quando falamos de democracia, não é a das elites, mas a do povo. Não é a da concentração da riqueza, mas a da distribuição. Não é a da imposição, mas a da participação. Não é a da guerra, mas a da paz. Não é a da indiferença e da exclusão, mas a da cooperação e da inclusão.

Quando falamos de democracia, nos referimos à democratização da cultura, do acesso à educação, do acesso à saúde, do fim último dos governos, que é a promoção da felicidade de seus povos.

A democracia, como dizia Abraham Lincoln, é o governo do povo, pelo povo e para o  povo.

Não há democracia quando não há opção para os pobres, para os despossuídos.

Por isso, quero propor uma ação concreta para o G20, simples: uma proposta que parta de uma nova visão das Nações Unidas — destinar 10% do gasto mundial em armamento, que soma trilhões de dólares, para impulsionar um programa global que permita a milhões de pessoas reflorestar milhões de hectares todos os anos.

Em vez de semear guerra, semeemos paz. Semeemos vida.

Quero propor uma declaração contra a intervenção militar em Cuba, para que o diálogo e a paz prevaleçam.

Quero também estender um convite para que esta cúpula tenha como próxima sede o México, onde possamos dialogar sobre uma economia centrada no bem-estar e sobre uma democracia que responda às verdadeiras necessidades dos povos.

Porque a democracia significa elevar o amor acima do ódio, cultivar a generosidade em vez da avareza, a fraternidade acima da guerra.

A democracia significa que a vida não se compra — como tampouco a liberdade nem a dignidade dos povos.

A democracia significa que somente o respeito à diversidade e o amor pelos demais podem construir um mundo onde caibam todos e todas — todos os povos, todas as línguas, todas as culturas, todas as nações.

Sou uma mulher de paz e represento uma nação que ama a liberdade, a justiça, a fraternidade e que entende a democracia como diría o grande Benito Juárez:

Com o povo, tudo; sem o povo, nada. Com os povos, tudo; sem os povos, nada.

Muito obrigada.

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