Antes de enfrentar o adversário, estude-o
Só a estupidez política — ou uma extraordinária incompetência estratégica — pode explicar que um candidato ao governo do Rio de Janeiro tenha entre seus principais adversários Anthony Garotinho e não comece a campanha fazendo a pergunta mais elementar de todas: O que aconteceu quando esse homem governou o Estado?
Antes de discutir uma promessa nova, examine a antiga; antes de responder ao discurso de hoje, procure o resultado de ontem e antes de contratar marqueteiro para inventar um adversário, estude o adversário que já existe.
GAROTINHO.
Anthony Garotinho governou o Rio de Janeiro de 1º de janeiro de 1999 a 6 de abril de 2002, quando deixou o cargo para disputar a Presidência da República. Benedita o substituiu.
Em outubro de 2001, um dia depois de Benedita anunciar que assumiria o governo quando Garotinho saísse para concorrer à Presidência e que pretendia disputar a sucessão estadual, Garotinho acusou-a de participação no desvio de R$500 mil destinados a um programa social. Benedita reagiu e decidiu questioná-lo judicialmente. Garotinho recuou da acusação.
Rosinha Garotinho disputou com Benedita e foi eleita, não para suceder o Garotinho mas para, simplesmente, substituí-lo. O casal governou juntos de 1º de janeiro de 2003 até o fim de 2006.
Portanto, somados os dois períodos, temos 2.652 dias de exercício do poder estadual, quase oito anos, tempo suficiente para se ter uma avaliação do desempenho político e administrativo de um governante.
A República do Chuvisco
Quando Garotinho chegou ao Palácio Guanabara, levou consigo assessores e colaboradores provenientes de sua experiência política em Campos dos Goytacazes. O grupo ganhou um apelido que entrou para o vocabulário político fluminense: “República do Chuvisco”, referência ao tradicional doce campista. Não era apenas uma brincadeira. Representava a transferência para o governo estadual de um núcleo político construído no Norte Fluminense.
É nesse ambiente que aparece um personagem que merece atenção especial: Rodrigo Silveirinha Corrêa.
Silveirinha trabalhou na campanha de Garotinho em 1998 e no governo dele ocupou função importante na administração tributária da Secretaria estadual de Fazenda. Silveirinha estava inserido na estrutura do governo Garotinho e tornou-se personagem central do escândalo conhecido como Propinoduto, que envolveu fiscais e recursos enviados para contas no exterior.
Quem pretende governar novamente precisa explicar às pessoas que escolheu para ajudá-lo a governar.
E a segurança pública?
Aqui talvez esteja uma das áreas em que o exame do passado seja mais necessário.
Em 12 de junho de 2000, durante o governo Garotinho, o Rio viveu uma das imagens mais traumáticas de sua história recente: o sequestro do ônibus 174, no Jardim Botânico.
O país acompanhou o drama ao vivo pela televisão.
A operação policial, envolvendo o BOPE, terminou tragicamente. Na tentativa de intervenção, um policial atingiu a refém Geisa Gonçalves; Sandro do Nascimento também disparou contra ela. Geisa morreu. Sandro morreu posteriormente, asfixiado dentro de uma viatura policial.
O episódio se tornou símbolo das deficiências na preparação para situações críticas envolvendo reféns. Garotinho era governador. E, portanto, chefe político do governo responsável pelo sistema estadual de segurança.
Em abril de 2003, diante de uma grave crise na segurança pública — ataques de traficantes, assassinatos de policiais, ônibus incendiados e conflitos dentro da própria cúpula da segurança — Rosinha tomou uma decisão politicamente extraordinária: nomeou o próprio marido secretário de Segurança Pública. Garotinho tomou posse em 28 de abril de 2003.
A partir dali não era mais apenas o ex-governador e principal liderança política do governo. Garotinho passou a ser o responsável político pela Secretaria de Segurança.
Quem se apresenta como capaz de solucionar a violência no Rio deve ser confrontado com o período em que esteve diretamente à frente da estrutura de segurança.
Benfica
E então chegamos a um dos episódios mais brutais daquele período.
Entre 29 e 31 de maio de 2004, já durante o governo Rosinha e no período em que Garotinho ocupava a Secretaria de Segurança, ocorreu a rebelião da Casa de Custódia de Benfica. Foram aproximadamente 62 horas de motim. O resultado foi aterrador: 31 mortos, entre presos e um agente penitenciário.
Presos de facções rivais foram assassinados. Houve corpos mutilados e carbonizados. O episódio foi considerado uma das rebeliões mais violentas da história penitenciária do Rio.
Portanto, é absolutamente legítimo perguntar sobre as condições do sistema penitenciário, a capacidade do Estado de separar facções criminosas, a inteligência disponível e a política de segurança existente naquele momento.
É para isso que serve uma campanha eleitoral.
Não para apagar o passado, mas para interrogá-lo.
Outro capítulo que merece ser examinado é o da publicidade.
No governo Rosinha, com Garotinho exercendo enorme influência política, houve forte investimento em propaganda institucional. Uma das campanhas mais conhecidas afirmava que os governos Garotinho e Rosinha haviam realizado dez mil obras.
O número impressionava.
Mas reportagem de O Globo questionou a contabilidade utilizada, apontando que entre as realizações anunciadas apareciam obras não concluídas, outras cuja execução era contestada e até serviços de manutenção da Cedae contabilizados no conjunto.
O Ministério Público abriu procedimento para investigar o caso e a campanha acabou retirada.
E depois veio Sérgio Cabral
Há ainda uma decisão política que não pode ser esquecida.
Em 2006, encerrado o ciclo Rosinha, Anthony Garotinho e Rosinha apoiaram Sérgio Cabral para o governo do Rio no primeiro turno. Sabemos hoje o que aconteceu posteriormente com o governo Cabral e com seu próprio ex-governador. Seria desonesto atribuir a Garotinho responsabilidade pelos crimes que Sérgio Cabral praticou anos depois. Responsabilidade criminal é individual. Mas responsabilidade política existe.
Quem escolhe um candidato, quem o apresenta ao eleitor é quem mobiliza seu grupo político em favor dele. E quem pretende voltar a governar pode perfeitamente ser perguntado: Por que Sérgio Cabral era sua escolha para governar o Rio? Não se trata de responsabilizar alguém pelo que não poderia prever. Trata-se de conhecer seus critérios políticos.
É uma ótima pergunta para quem, como Garotinho, tem a mania de terceirizar as responsabilidades. É o que ele faz agora com Douglas Ruas.
Antes das promessas, os resultados.
No ano 2000, durante o governo Garotinho, o Estado registrou 6.287 vítimas de homicídio doloso. Em 2006, último ano de Rosinha, foram 6.323. Praticamente o mesmo patamar. Entre uma ponta e outra dessa história, houve momentos ainda piores: em 2002 foram 6.885 vítimas; em 2005, 6.620.
Nos crimes patrimoniais, o quadro é mais difícil de defender.
Os roubos de veículos passaram de 27.728 em 2000 para 34.324 em 2006. Os roubos de carga foram de 3.390 para 4.566. O total de roubos saiu de 83.243 para 124.087. E os roubos a transeuntes saltaram de 19.219 para 46.340.
Mais do que dobraram.
É verdade que a estatística policial deve ser lida com cuidado. O aumento do registro pode decorrer em parte de maior notificação, mudanças administrativas e aperfeiçoamento dos sistemas policiais. Uma análise séria precisa reconhecer isso.
Mas então aparece a pergunta que qualquer adversário de Garotinho deveria colocar: se esses são os dados oficiais produzidos pelo próprio Estado, qual é a explicação do ex-governador para eles?
E há mais.
Quando Garotinho assumiu pessoalmente a Secretaria de Segurança no governo Rosinha, em 2003, o Rio registrou 1.195 mortes decorrentes de intervenção policial. Foram 983 em 2004, 1.098 em 2005 e 1.063 em 2006.
Houve redução entre o primeiro e o último ano, e isso deve ser registrado, mas o Estado continuava convivendo com mais de mil mortes anuais provocadas por intervenção policial.
Estamos falando de registros oficiais.
E um candidato que disponha desses números e não os coloque diante de um ex-governador está abrindo mão da pergunta mais elementar de uma eleição:
O senhor já teve o poder. Quais resultados entregou?
O exame também deve alcançar as finanças públicas.
Ao final de 2006, a dívida consolidada do Estado alcançava aproximadamente R$48,1 bilhões. Naquele mesmo ano, a própria administração projetava que o governador seguinte receberia um déficit da ordem de R$2,2 bilhões.
Porque é exatamente para isso que serve o passado de um candidato que já governou: para substituir promessa por comparação.


