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Uma coisa leva à outra

Sei lá a razão, mas fui à estante buscar “A Arte de Furtar”, obra de um anônimo, prefaciada pelo imortal João Ubaldo Ribeiro – imortal de fato, por merecimento, pois existem uns e outros assim considerados sem merecimento. Daí, lembrei-me de um artigo escrito por ele em 2008, que me atrevo a compartilhar com você, só por satisfação, pois talvez nada tenha a ver com a realidade presente.

Nós somos mesmo é um bando de ladrões” – João Ubaldo Ribeiro (outubro de 2008). Retirado do Acervo O Globo:

Admito que a afirmação acima é um tanto forte e pode indignar os leitores, que, em sua esmagadora maioria, tenho certeza, nunca furtaram nada na vida. Ao mesmo tempo, manda o diabinho que sopra besteiras nos ouvidos de escritores e malucos correlatos que eu pense duas vezes, antes de ter essa certeza toda. De perto, ninguém é normal, disse Caetano, não sem razão. E, segundo me contam, disse Nélson Rodrigues, coberto de razão, que, se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém. Não sabemos com certeza o que os outros fazem. Podemos saber ou achar que sabemos muito, mas geralmente não sabemos nada. É até bem freqüente — e está aí a turma analisante/analisanda que não me deixa mentir — que nós mesmos não saibamos, ou não lembremos, o que fazemos ou fizemos.

Além disso, sempre me manifesto contra a mania — que parece que estamos perdendo um pouco nos últimos tempos, mas pode ser somente impressão — de nos referirmos a nós próprios na terceira pessoa: “os brasileiros” isso e aquilo, “o brasileiro” isso e aquilo. É como se não tivéssemos nada a ver com as barbaridades que costumamos denunciar ou ridicularizar. Trata-se de um povo do qual não fazemos parte. Não posso concordar com isso, ainda mais escrevendo para jornal. Não dá para me ver como um observador destacado de uma realidade à qual pertenço — e claro, não alego originalidade quando repito que serei sempre, ao mesmo tempo, de várias formas, sutis ou claríssimas, sujeito e objeto dessa observação.

E, vamos e venhamos, pode ser chato para nossa famosa auto-estima, mas a sensação que dá, quando a gente fica a par do noticiário, não é a de que aqui absolutamente todo mundo rouba, de uma maneira ou de outra? Não vou hierarquizar, nem mesmo qualificar nada, vou só olhar aqui à toa. Mais um assalto na Lagoa, no Rio. Entre os assaltantes, um inspetor da Polícia Civil. Mais um assalto na madrugada, em São Paulo. Entre os assaltantes, um delegado. E o Tribunal de Contas da União? Está certo, seus quadros não são compostos de anjos tampouco, mas logo o Tribunal da Contas da União, uma espécie de símbolo institucional (pode até nunca ter passado muito de símbolo, mas é símbolo, isso tem valor) da seriedade com o dinheiro público?

De vez em quando fico pensando que há uma grande força-tarefa, ou uma vasta organização de forças-tarefas, dedicada em regime exclusivo à bolação e estruturação de falcatruas. Vamos pensar que seria possível para um governo, especialmente esse governo, conceber um mecanismo inteiramente novo de distribuição de benefícios para os carentes. No dia seguinte, já teria sido montado um esquema para fraudar tudo. Não existe área em que a roubalheira não funcione. Policial rouba. Juiz rouba. Deputado rouba. Senador rouba. Governador rouba. Prefeito rouba. Vereador rouba. Procurador rouba. Fiscal rouba. Jornalista (não sei de nenhum no momento, mas claro que não somos exceção) rouba. E não é só o dinheiro público que é abiscoitado, é o particular também, pois noticiaram qualquer coisa como um prejuízo médio de cinco por cento, nas empresas que funcionam no Brasil (agora se diz “corporações” — por que não trocam a língua de uma vez, em lugar de ficarmos nesta promiscuidade depravada?), causado por roubalheiras ou fraudes cometidas pelos empregados. E a solução é bem brasileira —— esses brasileiros são muito criativos. A solução é incluir o prejuízo nos custos da empresa.

Ou seja, quem paga o roubo somos nós mesmos e, portanto, eu tinha razão. Pelo menos nós mesmos somos todos ladrões, não há um só que escape. Como ícone nacional, não mais o Jeca Tatu, anquilosado e ultrapassado, mas Ali Babá, próspero e intimorato. Antigamente, eu achava exagero dizer-se que o dinheiro dos impostos no Brasil não dá para as despesas porque se rouba muito. Pensava que era uma taxa pequena, cifra relativamente marginal. Agora, me vejo obrigado a mudar de idéia. Os impostos obscenamente altos e abundantes que pagamos são insuficientes para a roubalheira. A reforma fiscal, que, como as outras, dizem que fizeram mas não fizeram, certamente empaca nesse gravíssimo problema. Abatendo-se da receita o que se rouba, a tendência é cada vez mais ficarmos no vermelho.

Gostaria de encerrar o papo com uma nota otimista, muito em voga en-tre intelectuais de todas as índoles. Aliás, o politicamente correto é terminar considerações como estas afirmando que, felizmente, o povo é honesto. O povo mesmo, esse é honesto por natureza e tradição, é só ver como se comporta a maioria. Receio, contudo, que no momento não me encontro muito propenso a concordar, eis que nem esmola a gente pode dar acreditando que está fazendo o bem, pois pode perfeitamente estar ajudando uma quadrilha que explora crianças, prostitui meninas na puberdade e comete outras coisas que “fazem muito no Brasil”, é um país tremendo esse Brasil e seus brasileiros. Até dar dinheiro a instituições de caridade a gente dá com um pé atrás, porque volta e meia aparecem casos de gente que enriqueceu com a grana que recebia para os necessitados. Eu mesmo já caí nessa diversas vezes, inclusive na inesquecível ocasião em que juntei dinheiro de que não podia dispor, para ajudar um “hanseniano” mineiro e descobrir depois que era uma quadrilha, especializada nesse golpe. Aqui tudo se falsifica, de remédios a pedidos e há inúmeros casos, sério mesmo, de falsificações falsificadas. É, no sentido lato e generalizando só um pouco, somos um povo de ladrões. Até porque aqui sempre valeu o latinzinho citado pelo bom Erasmo, em seus “Adágios” : nullus mallus magnus piscis , nenhum mal vai ao peixe grande. Aí todo mundo acaba aprendendo e o peixe pequeno vem aprendendo bastante, ao longo dos séculos.

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Os dentes do dragão: a autodestruição da direita brasileira

Por: Jair de Vasconcelos Filho

A mitologia grega, muitas vezes tratada apenas como ornamento narrativo, é, na realidade, um repositório sofisticado de intuições sobre poder, conflito e ação humana. O episódio de Jasão e os dentes do dragão, no ciclo do Tosão de Ouro, ilustra com precisão essa dimensão. Diante de um exército que brota da terra, Jasão não recorre à força direta.

Ele lança uma pedra. Incapazes de reconhecer a verdadeira ameaça, os soldados voltam-se uns contra os outros e acabam se destruindo mutuamente.

Essa imagem mítica não descreve apenas um ardil heroico, mas antecipa um princípio recorrente da teoria política: movimentos desprovidos de discernimento estratégico tendem à autodestruição. A força, quando desacompanhada de inteligência política, converte-se em fragilidade.

Só assim se pode compreender a fragmentação contemporânea da direita brasileira, em especial do bolsonarismo.

Maquiavel, em O Príncipe, rompe definitivamente com a tradição moralizante do poder ao afirmar que a política não se rege por intenções proclamadas, mas pela capacidade de agir eficazmente em contextos adversos. A virtù não é virtude ética, mas competência estratégica, leitura do tempo histórico (tempo), adaptação às circunstâncias (occasione) e manejo do conflito.

O bolsonarismo nasce, porém, de uma recusa explícita dessa tradição. Ele se estrutura como negação da política enquanto técnica de mediação, substituindo-a por uma moralização permanente do espaço público. Negociação torna-se “traição”; compromisso vira “corrupção”; divergência interna converte-se em inimizade absoluta.

Esse deslocamento produz um efeito devastador: a impossibilidade de sustentar alianças estáveis. O movimento passa a operar segundo uma lógica binária — amigo/inimigo que só se mantém enquanto o inimigo externo permanece claramente identificável. Quando esse inimigo se reorganiza ou se torna difuso, a lógica se volta inevitavelmente para dentro.

A direita, então, passa a guerrear contra si mesma. O bolsonarismo institucionalizou a irreflexão como método. A política foi reduzida a performance, slogan, afeto bruto. O espaço do pensamento foi deliberadamente rejeitado como fraqueza ou elitismo. Movimentos que abandonam o pensamento não erram apenas; perdem a capacidade de corrigir o erro. A fragmentação atual não é um desvio, mas a consequência lógica de uma prática política que aboliu a reflexão estratégica.

Nesse cenário, conflitos internos não são metabolizados; são ampliados. Cada dissenso é tratado como ameaça existencial. Com isso, o campo político passa a se enfraquecer por sucessivas exclusões internas.

O bolsonarismo não passa de um movimento fundado no ressentimento, que vive da negação do outro. Ele não cria valores; reage. Sua identidade depende da existência constante de um inimigo.

Quando o adversário externo — real ou imaginário — deixa de cumprir essa função mobilizadora, o ressentimento não desaparece. Ele se redistribui internamente. Surgem novos culpados, novas acusações, novas purificações morais.

É nesse ponto que o bolsonarismo começa a devorar seus próprios quadros, líderes e bases. Não se trata de traições reais, mas de uma necessidade estrutural: o ressentimento precisa de alvos para sobreviver. (Nietzsche)

Enquanto isso, o campo progressista opera sem dificuldade: disciplina organizacional, pragmatismo institucional e gestão do tempo político. A esquerda não precisa ser brilhante; basta ser funcional. Diante de um adversário que se fragmenta, a vitória torna-se quase administrativa.

Aqui, a analogia mítica se completa. Jasão não vence por superioridade moral ou militar, mas por compreender a natureza do inimigo. Ele sabe que não precisa atacá-lo; basta provocar sua incapacidade de discernimento. Alcançar o Tosão de Ouro será mera consequência.

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Hoje, dia 13 de dezembro.

Há 56 anos, neste mesmo dia e mês, os agentes do Estado brasileiro entronizados no poder, decidiram romper com a própria consciência. Não foi um gesto impulsivo, nem um acidente institucional. Foi uma decisão fria, anunciada em voz alta e registrada para a História.

“Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.”

Pronunciada por um coronel travestido de ministro de Estado, a frase anunciou o Ato Institucional número 5 (AI-5). Jarbas Passarinho aplainou o caminho para dar passagem a mais um tempo sombrio na política brasileira.
A legalidade foi o álibi para o uso da força como método de ação política.

Eis aí uma questão que precisa estar sempre presente no debate político: o que está previsto em lei é legal, mas se a lei não está firmada na vontade do povo e, principalmente se é usada contra ele, não é legítima.

Uma democracia é firmada na legitimidade, de tal modo que ela, somente ela, justifique a existência das leis.

Mas, o que são os escrúpulos deixados de lado por Jarbas Passarinho? Escrúpulos são os freios internos que impedem alguém de fazer o que sabe que é errado, mesmo quando isso lhe traria vantagem, poder ou aplauso. São a voz incômoda da consciência; o desconforto moral que surge antes da injustiça e aquilo que faz alguém hesitar diante do desejo de atropelar regras, pessoas ou instituições.

Ter escrúpulos é reconhecer limites. Abrir mão deles é declarar que vale tudo pelo poder. Quando Jarbas Passarinho disse “às favas os escrúpulos de consciência”, ele deixou claro: sabemos que é errado o que faremos em seguida, mas faremos assim mesmo.

Não houve ingenuidade. Houve escolha.

Sempre que a política abandona os escrúpulos, as normas de convívio social passam a ser vistas como obstáculos e nunca como garantias; as instituições são tratadas como instrumentos e não limites; os adversários viram inimigos; as exceções viram regras e o interesse dos poderosos passa a justificar toda e qualquer ação.

A ditadura não grita. Ela racionaliza, se explica e se ampara na legalidade, para ter aparência de democracia. Já nos vimos isso o suficiente para compreender como as ditaduras funcionam e se justificam?

Desconheço uma frase mais honesta e assustadora sobre o exercício do poder do que aquela dita pelo senhor Jarbas

Passarinho no dia 13 de dezembro de 1968. Ele, independente do que tenha sido ou tenha feito, será lembrado sempre pelo dia em que mandou às favas todos os escrúpulos da consciência, para autorizar o AI-5, ato legal que patrocinou, censuras, mortes, prisões e exílios.

O verdadeiro divisor de águas entre a ditadura e a democracia não é ideológico, nem jurídico, nem institucional. É, portanto, moral. Na dúvida, por favor, confira. Está fácil conferir.

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É a vontade de Deus?

“O erro e o pecado são meus, mas onde está a nossa vontade, se tudo é vontade de Deus?”

Escreveu Oswaldo Montenegro, numa oração belíssima. Ele termina a canção dizendo: “E a mim, que sou tão descuidado, não resta mais nada a fazer. Apenas dizer que não entendo. Meu Deus, como amo você.”

Pense comigo: se tudo fosse vontade de Deus, onde ficaria a nossa? Seríamos marionetes e Deus, o manipulador. Isso não nos ofenderia? Talvez. Mas nada seria tão desastroso quanto acreditar que Deus não se ofenderia com essa ideia. Ele nos fez à Sua imagem e semelhança, e justamente por isso colocou em nós a liberdade de decidir o próprio caminho.

Mesmo assim, temos a mania de terceirizar as consequências das nossas escolhas:
Se adoecemos, “Deus permitiu”.
Se somos curados, “Deus nos curou”.
Se alguém vira presidente, “Deus ungiu”.
E, se o presidente não serve, é porque “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Para que Deus aja, é necessário que o ser humano abra mão do seu poder de agir — não da liberdade de decidir que esse seja o processo. No Getsêmani, Jesus pediu: “Pai, se queres, passa de mim esse cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua.” Cristo decidiu entregar-se à vontade do Pai porque teve liberdade para isso.

No entanto, muita gente toma na vida as decisões que quer, age como quer e, quando nada acontece como gostaria, transfere para Deus a tarefa de consertar os erros gerados pela própria liberdade de agir. Deus deixa de ser Senhor para virar mordomo, bombeiro ou advogado.

Almir Guineto, outro mestre da música brasileira, escreveu Saco Cheio:
“Os habitantes da Terra estão abusando; o nosso supremo divino sobrecarregando. Fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo. E só se lembram de Deus quando estão em perigo.”

Se há miséria no mundo, a responsabilidade é dos que têm muito e não se importam com os que têm pouco — mas também pode vir da preguiça de uns, da diligência excessiva de outros ou da irresponsabilidade de quem coloca pessoas no mundo esperando que outros cuidem.

Se ainda existem doenças incuráveis, é porque a ciência não avançou o suficiente — embora já tenha avançado muito, graças a quem trabalha para tornar a vida mais longa e saudável.

Se há roubos, é porque alguém decidiu tomar à força aquilo que não quer conquistar pelo trabalho.

Se há tiranos, é porque existem covardes que cumprem suas ordens sem questionar.

Se juízes julgam mal, isso decorre das decisões deles — ou de advogados ruins, leis mal formuladas ou falhas do sistema jurídico e político.

Tudo isso nasce da mesma fonte: a liberdade que cada um tem para decidir e agir.

E poderíamos seguir nessa linha para explicar praticamente todos os problemas do mundo.

Na raiz de tudo está o ser humano, com sua liberdade de escolher.

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A COP 30 de Luís XIV – LULA, REI-SOL

Três imagens marcam a COP 30 na minha cabeça: o caríssimo iate Iana 3; o incêndio num dos pavilhões da exposição e o novo companheiro inseparável do Presidente da República, o chapéu panamá, indumentária usada como uniforme oficial daquele que sorri, posa, promete e some. 

Sabe-se pelo conhecimento da história que a sociedade brasileira, durante bastante tempo, viveu sob a sombra luminosa do estilo francês. Pois bem. Lula e o PT são a representação de Luís XIV, o Rei-Sol. 

Com 18 anos no poder, com um curto intervalo de quatro anos, o Partido dos Trabalhadores construiu e mantém um teatro político, onde brilham os palanques, as narrativas coreografadas, os inimigos inventados e os heróis e heroínas artificiais. 

No reinado de Luís XIV, o povo francês descobriu o custo silencioso de viver sob um governante que acreditava ser o centro do universo. Nós também já sabemos como é viver uma relação política fundada não no diálogo, mas no espetáculo. 

Luís XIV criou Versalhes para afastar o país real e encenar o país oficial. Esse trabalho o PT encontrou pronto, feito por Juscelino, que criou Brasília com o mesmo propósito.  

O Rei-Sol brilhava, o povo ardia. Lula brilha, o povo…

No tempo de Luís XIV, só ao rei cabia a liberdade para pensar e decidir. Ao povo, obedecer e pagar a conta. O PT nos vê como alguém a quem basta entregar o mínimo e exigir o máximo em fidelidade eleitoral e sustento financeiro. 

Assim como o povo francês pagou o preço do brilho falso do Rei-Sol, o povo brasileiro arca com  o custo de um governo que prefere encenar poder a exercer responsabilidade. 

A propósito, em 1694, François de Salignac de La Mothe-Fénelon (1651–1715), teólogo, escritor e mais tarde arcebispo de Cambrai escreveu uma carta a Luís XIV. Sirvo-me dela, como uma mensagem que eu, se tivesse intimidade com Lula, enviaria a ele: 

“Sire. Quem toma a liberdade de vos escrever não tem interesse em vos prejudicar. Não o faz por desapontamento nem por ambição, tampouco por desejo de intervir em grandes questões(…). 

Se fala com vigor, não vos surpreendais: a verdade é livre e forte. Não estás acostumado a ouvi-la. Os que vivem cercados de lisonjas confundem a franqueza com azedume, ressentimento ou exagero, quando ela é apenas pura verdade. Ocultá-la seria traí-la.(…). 

Há cerca de trinta anos, vossos principais ministros derrubaram os antigos princípios do Estado para elevar ao máximo vossa autoridade, que na realidade concentraram em suas próprias mãos. 

Ninguém mais fala do Estado e de suas leis, mas apenas do Rei e de sua vontade. Eles aumentaram as vossas rendas e multiplicaram os vossos gastos sem medida. 

Exaltaram-vos até aos céus, pretendendo eclipsar a grandeza de todos os vossos predecessores juntos; mas, na verdade, empobreceram toda a França, estabelecendo na corte um luxo monstruoso e incurável.

Desejaram erguer-vos sobre a ruína de todas as ordens do Estado, como se fosse possível ser grande arruinando aqueles de quem depende a vossa grandeza. Rígidos, altivos, injustos e de má-fé, seus ministros nada respeitaram nas relações exteriores: quiseram apenas destruir o que se opunha a vós.

Acostumaram-vos a louvores que roçavam a idolatria, e que, para vossa honra, deveríeis ter rejeitado com indignação. Tornaram o vosso nome odioso e a nação insuportável aos povos vizinhos. 

Não conservaram nenhum dos antigos aliados, pois desejavam apenas escravos(…). Enquanto isso, vosso povo — que deveríeis amar como filhos, e que até agora vos tem servido com abnegação — morre de fome. 

A terra é abandonada, cidades e campos se despovoam, a indústria perece, os operários não têm sustento, o comércio está arruinado(…). As autoridades impotentes, ora toleram insolências, ora distribuem dinheiro para acalmar tumultos. 

Massacram sem piedade um povo levado ao desespero pelos impostos exigidos para sustentar guerras que ele paga com o suor do rosto.

Há muito que o braço de Deus se ergueu sobre vós. Ele tarda em abater-se porque tem piedade de um príncipe cercado por bajuladores e porque os vossos inimigos são também inimigos dele. 

Mas vós não o amais verdadeiramente nem o temeis com reta devoção. Vossa religião resume-se a superstições, a observâncias exteriores. O que amais é apenas vossa glória e vossos triunfos. Quereis tudo para vós, como se fôsseis o deus da terra, e tudo deve ser sacrificado ao vosso engrandecimento.

Perguntais talvez, Excelência, o que deveis fazer? Eis: humilhar-vos sob a mão poderosa de Deus, e não esperar que Ele vos humilhe. Pedir a paz e expiar, por essa humilhação, toda a glória que transformastes em vosso ídolo. 

Sire, quem vos dirige estas palavras, longe de se opor a vossos interesses, daria a vida para ver-vos tal como Deus deseja que sejais — e não cessará de fazer preces por vós”.

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Zumbi e Palmares

“Vendidos como animais, são comprados às centenas pelos donos de grandes propriedades, que os submetem ao controle de um capataz – na maioria das vezes, pior do que o próprio senhor(…) Os maus-tratos(…) obrigam-os por vezes a fugir para o mato e a viver aí pilhando tudo o que encontram pela frente, vingando-se de certo modo dos tormentos que lhes foram impostos”.

“Em 1681, um grupo de moradores de Pernambuco reclamou, de forma desanimadora: ‘As nossas campanhas com os negros de Palmares não têm tido o menor efeito. Eles parecem invencíveis”.

Estão aí duas passagens do primeiro livro da trilogia Escravidão, de Laurentino Gomes. Ele dedicou os dois últimos capítulos da primeira obra ao Zumbi dos Palmares.

Para a grande maioria do povo brasileiro, o dia 20 de novembro é tão somente mais um feriado, que por cair numa quinta-feira, torna-se prolongado. Fala-se sobre praias, viagens, cinemas, descansos, encontros e reencontros.

No entanto, o dia está reservado no calendário brasileiro para evitar que caia no esquecimento a morte de Zumbi e o fim de Palmares, na luta incansável de negros e índios pela liberdade e defesa de um território onde ela pudesse ser cultivada. Zumbi, o líder; Palmares, o local onde eles e seus liderados sentiam-se livres. 

Olhado desse modo, o 20 de novembro de 1695, une-se ao dia cinco de outubro de 1897, data do massacre em Canudos e não considerado feriado e ao 21 de abril de 1792, quando Tiradentes foi morto, na luta pela liberdade de discordar.

É sempre a história da covardia do Estado contra aqueles que ousam levantar-se pela liberdade não de poucos, mas de todos. Aí está o que é mais curioso em tudo isso. Os valentes de Palmares, de Canudos e da Inconfidência Mineira, não lutaram só por si, mas por todos os que quisessem encontrar um lugar onde pudessem ser livres.

Como estamos na véspera de 20 de novembro, consideremos por enquanto só o dia dedicado ao Zumbi dos Palmares e o que sobre ele e seus liderados foi dito pelo povo pernambucano: “Eles parecem invencíveis”.

De fato, foram, pois eles compreenderam que sem liberdade, a vida perde completamente o sentido.

Em 1694, após meses de cerco, os bandeirantes de Domingos Jorge Velho desferiram o golpe derradeiro contra o maior símbolo de resistência negra do período colonial.

O ataque reuniu seis mil homens, artilharia pesada e reforços vindos de diversas capitanias. As defesas palmarinas, entrincheiradas num reduto de quase cinco quilômetros, resistiram por duas semanas — até sucumbirem ao fogo dos conquistadores.

Zumbi sobreviveu ao combate, refugiou-se na Serra Dois Irmãos, e ali permaneceu por quase dois anos até ser traído, capturado e morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça, decepada e exposta em Recife, pretendia demonstrar que o herói não era imortal, mas foi ali que nasceu o mito que atravessou três séculos e permanece vivo no imaginário nacional.

Outra lição vem de Palmares, de Canudos e de Minas Gerais: só lutam pela liberdade aqueles que, não sendo livres, têm consciência de tê-la perdido. Diz o artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que todos nascemos livres e iguais em dignidade e direitos.

Portanto, o primeiro passo para iniciar a luta pela liberdade é ter consciência de tê-la perdido. Essa é a verdade que liberta!

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Trump amanhece de crista baixa.

Nas eleições realizadas no dia 4/11/2025 nos EUA os democratas avançaram em estados e cidades estratégicos e os republicanos amargaram derrotas em disputas apoiadas por Donald Trump.

Abigail Spanberger venceu na Virgínia, Mikie Sherryl manteve o governo de Nova Jérsei e Zohran Mamdani conquistou a prefeitura de Nova York.

Os resultados mostram a derrota de uma campanha construída sobre slogans que blinda um governo midiático e ufanista.

Mas, o jogo não terminou. Os estrategistas de verdade entenderão o resultado como as preliminares do jogo principal que acontecerá em 2026.

O que farão os republicanos ? Qual será a estratégia deles ? Donald Trump será, a partir de agora, uma ameaça a ser descartada? Ou ele mesmo saberá ler o resultado para acertar a rota? Quem sabe não é o momento de antecipar o anúncio de um sucessor com imagem mais branda?

O que farão os democratas? Por acaso, entenderão 2026 como resolvido e trabalharão sem avaliar as chances de recuperação de um presidente que ainda está no poder? Um cara que parece ter sete vidas como os gatos?

Para republicanos e democratas, cresce a importância de ter um estrategista desses que são capazes de antecipar cenários e criar alternativas sem paixão.

A política brasileira tem Donald Trump como referência. Por isso, a Esquerda daqui amanhecerá em festa e a Direita cambaleante.

Será que a Direita daqui também baixará a crista e entenderá de uma vez por todas que é hora de parar de brincar de política, e de convocar um estrategista não apaixonado pelo que tem de Donald Trump na alma do bolsonarismo?

Por fim, como os políticos americanos não brincam em serviço e trabalham com olho nas pesquisas e melhores estratégias, sabe-se, agora, a razão de Donald Trump, antecipadamente, ter aliviado as pressões sobre o Brasil para cuidar de outras frentes.

E você? Como vê tudo isso?

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Uma Sutil Diferença

O Senado aprovou o pedido do Supremo Tribunal Federal para criar 160 novas funções comissionadas, destinadas a ampliar a segurança de cada um dos 11 ministros da Corte. Quarenta cargos de técnico judiciário estão incluídos no pacote. A medida será implementada ainda em 2025, com uma despesa adicional de R$7,6 milhões por ano, a partir de já.

Para conseguir os novos cargos, os ministros da Corte cumpriram o ritual legal: elaboraram um projeto de lei e o encaminharam ao Congresso. Deputados e senadores aprovaram e, em seguida, o projeto seguirá para a sanção do Presidente da República.

A nós, eleitores-contribuintes, cabe apenas sancionar — num tempo único e certo — os mandatos e pagar as contas.
O senador Carlos Portinho pediu verificação de quórum para tentar derrotar a proposta. Ele usou o argumento da má vontade dos ministros do Supremo com o Senado Federal. O Senador Omar Aziz respondeu.

Depois de divagar sobre os eventos de 8 de janeiro de 2023 e sobre o risco de vida para os ministros da Corte, o Senador Omar Aziz afirmou: “Eu não vou entrar aqui no mérito se o senador ou a senadora gostam ou não das decisões do Supremo…O aumento anual será de R$7 milhões, com média salarial de pouco mais de R$3 mil. “Não são sequer supersalários”.

Há bastante tempo, ainda nos bancos escolares e no lidar com a minha vida, aprendi que valores só são valores quando relativos. Não há valor absoluto.

Então, de fato, se comparados aos salários e despesas dos senadores, R$3 mil são troco. E os R$7 milhões de gastos adicionais por ano são quase nada diante dos R$4,9 bilhões destinados pelo Congresso ao Fundo Eleitoral; literalmente nada se comparados aos R$268 bilhões separados para o uso de deputados e senadores nas emendas ao Orçamento da União (Central das Emendas).

Mas, perguntem ao cidadão que recebe um salário mínimo por mês ou recebe zero pelo desemprego provocado pelas decisões do Estado Brasileiro, quanto representa na vida deles um salário de 3 mil reais por mês.
Ou quanto seria bom que esses 3 mil reais fossem acompanhados de todos os benefícios que são agregados à vida dos contratados pelo Estado. E se eles acreditam mesmo que estarão isentos do pagamento de impostos, quando fazem as suas compras do mês.

Existe uma outra questão. Ao que li, vi e ouvi, o pedido do STF não chegou ao Congresso acompanhado de demonstrativos de despesa ou de análises sobre a funcionalidade da estrutura administrativa e operacional da Corte.
Os relatores da matéria, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado, sequer tiveram esse cuidado ao encaminhar os pareceres pela aprovação.

Nas empresas privadas — e na minha vida pessoal — a banda toca diferente. Para nós, todo cuidado com as despesas é pouco, pois, se assim não for, seremos punidos com dor de cabeça e falência.

Mas há algo que podemos fazer: ficar atentos já é uma boa providência. Afinal, como teremos eleições no próximo ano, os deputados federais e dois terços dos senadores já andam atrás de votos.
Valeu!

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OPA! UMA BOA NOTÍCIA!

Uma boa notícia circulada neste mês de outubro de 2025 nos foi dada pelo Congresso Nacional. Por lá se disse não ao desejo do governo federal de arrancar mais 20 bilhões de reais dos contribuintes. E a gente por aqui metendo o malho na turma! Pode?

Confirmem: caiu por terra, a Medida Provisória 1.303/2025, criada como alternativa ao aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), rejeitada antes. Agora, o “buraco” no orçamento de 2026 alcançará algo em torno de 35 bilhões de reais. O que fará o governo?

Imagino que tentará obter o dinheiro por outros caminhos. Sim, pois o governo quer permanecer vivo sem mexer um milímetro nas despesas, pois esse é o costume. Não passa pela cabeça dos agentes do Estado – nunca passou – reduzir despesas. Isso nunca!

Não passa nem mesmo pela cabeça daqueles que rejeitaram a tal Medida Provisória, os componentes de um Congresso Nacional que nos custa 13,48 bilhões de reais por ano, 22,69 milhões por cabeça parlamentar. Sendo mais claro, cada senador e cada deputado federal nos custa 62 mil reais por dia! Que loucura!

Quando me deparo com os custos do Estado Brasileiro, um conjunto formado pelos poderes executivo, legislativo e judiciário e por todos os órgãos pendurados neles, segmentados por 5.569 cidades e 27 estados, incluindo o Distrito Federal, eu me lembro do alerta feito por Deus, quando o povo de Israel resolveu encher-lhe a paciência com o pedido para ter um rei:

“E disse o senhor a Samuel: Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós: (…) Tomará o melhor das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos. E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará para dar aos seus oficiais, e os dará aos seus servos…” (I Samuel 8)

É como diz o meu professor Paulo Rabello de Castro: “O modo mais eficaz de domínio de um povo não é pelas armas, e sim pela promessa de um sonho impossível de “governo grátis”…(O mito do governo grátis).

Ano que vem teremos eleições para escolher o presidente, os governadores, os senadores (dois por estado) e deputados federais e estaduais. Que tal ir às urnas com o custo de toda essa turma anotado num papelzinho ou na lembrança?

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Contrato leonino

“Homicídios demais sem solução”. A frase é título de um dos editoriais da Folha de São Paulo, publicados na edição de hoje, 8 de outubro de 2025. Pelo título já se sabe o que virá. O primeiro parágrafo confirma a expectativa: “A taxa de homicídios solucionados no Brasil permanece baixa e sem tendência de melhora…”. O editorialista sustenta o texto com os resultados da pesquisa “Onde Mora a Impunidade”, realizada pelo Instituto Sou da Paz.

Fui à pesquisa. Ela contém dados que reafirmam o meu sentimento sobre a nulidade do Estado Brasileiro. Quando digo isso, me questionam: “Sem o Estado teríamos a anarquia”. Ué! Não é o que temos por aqui? Ainda resta a alguém alguma dúvida? No tema, eu fecho com Hobbes, autor de O Leviatã. De que vale um Estado que não me assegura o cumprimento da única razão da existência dele, a segurança? 

Ora, diabos, a humanidade renunciou a uma série de liberdades para entregá-las aos agentes do Estado para dormir com as portas abertas e viver com a certeza de que não será molestado pelo poder e força dos mais fortes. A humanidade criou o Estado para que ele seja a força resultante da soma de todas as renúncias que ela optou fazer para conseguir segurança. Abrimos mão de quase tudo. 

Neste momento, trago o Professor Clóvis de Barros Filho para a conversa. Ele explica Hobbes: “A perspectiva do poder no Estado é a perspectiva da transferência dos poderes individuais para um poder central. Um deslocamento de poder. E esse deslocamento é uma troca: eu te dou tudo, Estado e você me dá segurança.  Uma troca que pode ser entendida como desequilibrada, mas que todos toparam trocar. Hobbes é cristalino: quando o Estado falha em garantir a segurança, ele quebra o pacto que lhe deu origem. O contrato social se dissolve. A autoridade perde legitimidade. E, no instante em que o cidadão precisa trancar o ferrolho da porta, algo essencial se rompeu”

Ora, se um dos contratantes não cumpriu a cláusula do contrato que assinou comigo, eu entendo esse ato como uma autorização para que eu também não cumpra o tal contrato. Mas, posso fazer isso? Nunca, pois, o Leviatã me engolirá vivo. Ele enviará seu parceiro essencial, o leão, animal que a criatividade constitui num tipo de contrato, o contrato leonino.  

E, por falar no leão, encerro com uma das fábulas de Esopo, que inspirou minhas palmas à decisão do Ministro Francisco Dornelles em 1985, de representar com a figura de um leão a Receita Federal. Ele não gostou. Vamos à fábula: 
Um leão propôs a outros animais uma caçada em grupo. Ao final, ele ficaria com toda a caça: a melhor parte por ser o rei, a outra parte por ser o mais forte e as restantes por ter força suficiente para ameaçar e matar quem, do grupo de caçadores, se opusesse à vontade dele.