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Pernambuco: quando a covardia vira estratégia eleitoral.

A campanha eleitoral em Pernambuco fechou a semana com um ato de covardia contra a candidata à reeleição Raquel Lyra. Cartazes apócrifos espalhados pelas ruas do Recife vinculam a imagem da governadora à de mulheres que assassinaram os maridos.

Fernando Lucena, esposo de Raquel Lyra, faleceu vítima de um infarto no dia 2 de outubro de 2022, justamente no dia do primeiro turno da eleição. Portanto, ela nada teve com isso. 

João Campos, principal adversário de Raquel Lyra, negou a participação da campanha dele no episódio, repudiou publicamente a agressão e defendeu a identificação e a punição dos responsáveis.

Contudo, o problema não é quem está de um lado ou do outro. É o método. A covardia é o instrumento. 

O fato não é novo. O Pregador, no Eclesiastes, sentenciou: “Nada há de novo debaixo do sol”. E é fato. 

Vejam vocês.

Em 1982, na primeira eleição direta para governador de Pernambuco desde 1965, o Estado assistiu a um episódio semelhante. Roberto Magalhães, candidato do PDS, apoiado pelo governador Marco Maciel, e Marcos Freire, senador pelo PMDB, disputaram o governo do Estado.

Em 1982, não havia segundo turno.

Marcos Freire abriu a campanha como franco favorito. As primeiras pesquisas indicavam-no com ampla vantagem na eleição. A vitória de Marcos Freire era “pule de dez!” Até que começaram a circular por Pernambuco fotografias da esposa do candidato, Carolina Freire, em um motel, na companhia de um aliado e amigo dele, o deputado federal Fernando Lyra.

Uma história sinistra.

O episódio já havia sido tornado público em 1981, um ano antes da eleição. Em 16 de abril daquele ano, o jornalista Carlos Chagas relatou o caso em sua coluna e, poucos dias depois, o Jornal do Brasil noticiou o assunto.

Quando chegou a campanha de 1982, aquilo que já era uma violência pessoal transformou-se em arma eleitoral. Milhares de panfletos começaram a circular em Pernambuco com a foto da esposa de Marcos Freire com o deputado Fernando Lyra. 

Foram distribuídos nas ruas, em portas de escolas e supermercados. Chegaram pelo correio às casas dos eleitores. Houve a denúncia, registrada na época, de que panfletos teriam sido lançados de um avião que sobrevoou o Recife.

A agressão foi tão repugnante que atravessou as fronteiras partidárias.

Em agosto de 1982, o deputado Augusto Lucena, do PDS, partido de Roberto Magalhães, classificou no Congresso a campanha contra Marcos Freire como “sórdida, descabida e absurda”.

A história ganharia um capítulo perturbador dez anos depois.

Em 1992, Marival Chaves, ex-integrante do aparelho repressivo, prestou depoimento a uma comissão da Câmara dos Deputados e afirmou que os panfletos envolvendo Carolina Freire e Fernando Lyra haviam sido montados e editados na gráfica da Escola Nacional de Informações, ligada ao SNI.

Aquilo que, durante a campanha, parecia uma operação clandestina de origem desconhecida passava a ser atribuído, por alguém que conhecera por dentro o sistema repressivo, a estruturas do próprio aparelho de informações do regime militar.

Marcos Freire perdeu a eleição. Roberto Magalhães recebeu 913.774 votos; Freire, 816.085.

Quarenta e quatro anos depois, Pernambuco volta a assistir à tentativa de introduzir a tragédia familiar na disputa pelo Palácio do Campo das Princesas.

Há uma linha que separa a dureza legítima da política da degradação moral.

Pode-se discutir o governo de Raquel Lyra, questionar suas políticas públicas, seus números, suas alianças e suas escolhas administrativas. Da mesma forma, em 1982, era perfeitamente legítimo combater politicamente Marcos Freire.

Mas nada disso importa para os covardes. E talvez seja essa a principal lição que une o Pernambuco de 1982 ao Pernambuco de 2026.

Roberto Campos dizia: “A burrice nacional não associa o efeito com as causas”.

A política, o povo e o país só perdem quando a covardia se transforma em estratégia para vencer uma eleição.

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Thurgood Marshall, primeiro juiz negro.

Hoje, 30 de agosto de 2026, completam-se 59 anos desde o dia em que o Senado dos Estados Unidos aprovou, por 69 votos a 11, a indicação feita pelo presidente Lyndon Johnson de um homem negro para a Suprema Corte. O presidente chancelou uma das mais extraordinárias carreiras jurídicas do século XX. Portanto, Thurgood Marshall não foi escolhido por ser negro.

Antes de se tornar juiz, Thurgood já havia transformado a história norte-americana como advogado nomeado por John Kennedy para o Tribunal de Apelações e, posteriormente, por Lyndon Johnson para o cargo de procurador-geral e, depois, para a Suprema Corte, Marshall permaneceu no Tribunal até 1991.

Nascido em Baltimore, em 2 de julho de 1908, Marshall formou-se em Direito pela Universidade Howard, onde foi aluno de Charles Hamilton Houston. Foi com Houston que aprendeu uma concepção que orientaria toda a sua vida: a de que o advogado deveria atuar como uma espécie de “engenheiro social”, utilizando o conhecimento jurídico para modificar estruturas injustas.

Marshall compreendeu que a discriminação não seria superada apenas por discursos ou manifestações de indignação. Seria necessário confrontá-la dentro das instituições, demonstrando, caso a caso, que muitas leis aparentemente legítimas serviam para preservar desigualdades profundas.

Sua estratégia era paciente e progressiva. Em vez de atacar todo o sistema de segregação de uma só vez, Marshall e os advogados da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) foram desmontando juridicamente os fundamentos da segregação.

Primeiro, evidenciaram que as instituições destinadas aos negros não ofereciam as mesmas condições daquelas reservadas aos brancos. Depois, avançaram sobre a própria doutrina dos “separados, mas iguais”, demonstrando que a separação racial era, por sua natureza, incompatível com a igualdade.

O ponto culminante dessa caminhada foi o caso Brown v. Board of Education, decidido em 1954. Como principal advogado dos estudantes e de suas famílias, Marshall sustentou que a segregação nas escolas públicas violava a proteção igualitária assegurada pela Constituição.

A Suprema Corte acolheu o argumento por unanimidade e declarou que escolas separadas eram inerentemente desiguais. A decisão atingiu um dos pilares jurídicos da segregação racial nos Estados Unidos e iniciou o processo de seu desmonte na educação pública.

A vitória não surgiu isoladamente. Dos 32 casos de direitos civis que Marshall defendeu perante a Suprema Corte, ele venceu 29. Seu êxito foi resultado de estratégia, preparação técnica e profundo conhecimento das instituições.

Marshall demonstrou que a transformação social não depende apenas da conquista do poder político. Também pode nascer da interpretação das leis, da construção de precedentes e da disposição de enfrentar juridicamente injustiças que, durante muito tempo, foram consideradas normais.

Durante seus primeiros anos, integrou uma Corte mais favorável à expansão dos direitos civis, mas com o passar do tempo e a mudança da composição da Corte Suprema, Marshall se encontrou cada vez mais na posição de dissidente e a dissidência foi uma forma de deixar registrado que a maioria de hoje não possui o poder de determinar definitivamente o significado da Justiça.

Marshall se opôs firmemente à pena de morte, defendeu uma interpretação abrangente das liberdades constitucionais e sustentou que a igualdade não poderia ser examinada de maneira abstrata. Para ele, era preciso considerar as condições concretas nas quais as pessoas viviam e os efeitos reais das decisões do Estado.

Sua história também nos obriga a refletir sobre o significado da presença de grupos historicamente excluídos nas instituições. A chegada de Marshall à Suprema Corte não resolveu as desigualdades raciais dos Estados Unidos, pois nenhuma nomeação individual teria esse poder, mas alterou a perspectiva do Tribunal e tornou visível uma parte da experiência norte-americana que, durante quase dois séculos, permaneceu afastada daquele espaço.

Representatividade, portanto, não deve ser confundida com concessão ou privilégio.

Ela adquire verdadeiro sentido quando está acompanhada de competência, trajetória e compromisso público. Marshall reunia essas três condições de maneira incontestável.

Marshall foi advogado quando os tribunais precisavam ser convencidos; juiz quando os direitos conquistados precisavam ser protegidos e dissidente quando a consciência lhe dizia que acompanhar a maioria significaria abandonar os princípios orientavam as convicções dele. 

Encerro com dois dados que têm, para mim, um significado especial: 

  1. Na Suprema Corte dos Estados Unidos há dois negros entre os nove juízes — Clarence Thomas, que ocupou a vaga deixada por Thurgood Marshall, e Ketanji Brown Jackson, a primeira mulher negra a integrar o Tribunal. No STF? Bem, Joaquim Barbosa não permaneceu no Tribunal até a idade-limite: aposentou-se voluntariamente aos 59 anos.
  2. A segregação no Brasil, além de racial é, sobretudo, social, um modelo que autoriza escolas para pobres e escolas para ricos e uma justiça criminal para ricos e outra para pobres. 

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SAIAS-JUSTAS.

A sabatina de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional, realizada ontem, 28 de agosto, trouxe à cena um tipo de confronto que costuma causar desconforto à TV Globo e confirma que os candidatos aprenderam que as sabatinas não são entrevistas, nem mesmo sabatinas, só debates entre eles e os jornalistas. 

Ao olhar da estratégia esse entendimento faz toda a diferença a favor dos candidatos. 

Renata Vasconcellos e César Tralli cobraram explicações sobre os R$61 milhões repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, Flávio foi pressionado a apresentar contratos e esclarecer a relação dele com o empresário.

Ele afirmou que se tratava de patrocínio cultural privado, sem o uso de dinheiro público ou incentivos da Lei Rouanet. Disse ainda que sua participação se limitava à autorização do uso de sua imagem e à captação de investidores, cabendo à produtora responder pelos contratos e pela prestação de contas. 

Os entrevistadores insistiram na crítica. Flávio Bolsonaro devolveu o questionamento à Globo: Daniel Vorcaro e o Banco Master mantiveram relações comerciais com empresas e atrações do Grupo Globo, incluindo iniciativas ligadas a Luciano Huck e eventos do Valor Econômico

Se receber recursos privados de uma instituição financeira era apresentado como um caso suspeito no caso do filme, por que relações semelhantes seriam consideradas normais quando envolvessem a emissora?

César Tralli respondeu irritado, que os contratos publicitários do Grupo Globo obedecem a critérios de mercado, legalidade e transparência institucional. 

Em uma entrevista ao vivo, entretanto, a força de um contra-ataque não depende apenas da equivalência jurídica. Depende também da percepção pública. E, nesse aspecto, a Globo voltou a ser colocada em uma posição incômoda.

Não foi a primeira vez.

Em 18 de setembro de 2014, durante uma sabatina do RJTV, Anthony Garotinho foi questionado por Mariana Gross sobre processos e acusações que enfrentava. Em vez de permanecer na defensiva, citou acusações de sonegação envolvendo a Globo e argumentou que responder a um processo não significava ser definitivamente culpado.“A Globo pode estar sendo vítima de uma injustiça”, ele ironizou.

Mariana Gross respondeu que a emissora nada havia sonegado e pagava seus impostos. Garotinho não parou aí e lembrou que a Globo apoiou o regime militar e posteriormente reconheceu esse apoio como um erro.

O episódio foi constrangedor, mas não teve a força simbólica do confronto entre Jair Bolsonaro e Míriam Leitão, no dia 3 de agosto de 2018.

Na sabatina, Bolsonaro era pressionado por suas declarações favoráveis ao regime militar. Em vez de negar suas posições, ele recorreu à história da emissora e citou um editorial de Roberto Marinho em defesa do golpe e colocou uma pergunta devastadora para aquele ambiente: se apoiar o regime militar desqualificava Bolsonaro como democrata, como a Globo classificava o seu próprio fundador?

A bancada de entrevistadores foi surpreendida. A cena produziu um contraste difícil de apagar: de um lado, o candidato citava um documento histórico da própria organização; do outro, a jornalista precisava ouvir orientações pelo ponto eletrônico e transmitir, pausadamente, a resposta formulada pela direção da emissora. 

A cena produziu um contraste difícil de apagar. Não se tratava apenas de decidir quem tinha razão sobre 1964. A Globo já havia feito sua autocrítica, enquanto Bolsonaro continuava defendendo aquele período. O ponto central estava na imagem transmitida ao público.

Bolsonaro parecia ter antecipado a pergunta e preparado o contra-ataque. A emissora foi surpreendida pela própria história.

A partir daquele episódio, Míriam Leitão deixou de ser vista apenas como uma jornalista crítica e passou a representar o poder editorial da Globo e suas contradições. A imagem dela foi desgastada e assim permanece até hoje. 

A comunicação política não é construída apenas pelas intenções dos envolvidos. É construída, principalmente, pela imagem que permanece.

Os casos de Garotinho, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro revelam um problema recorrente nas sabatinas da Globo. 

A emissora exerce legitimamente o direito de confrontar candidatos, investigar contradições e exigir transparência. Mas, quando o entrevistado apresenta fatos ou acusações envolvendo a própria organização e, desse modo, transforma os entrevistadores em agentes do interesse da emissora, a imagem dos jornalistas e da emissora perdem qualidade. 

É nessa mudança de papéis que nascem as grandes saias-justas.

O episódio de ontem mostra que a estratégia continua viva. Quando pressionados, políticos bem preparados procuram deslocar o foco para as contradições de quem pergunta. 

Nem sempre os casos são equivalentes. Nem sempre o contra-ataque responde à questão original. Mas, diante das câmeras, uma pergunta desconfortável pode causar tanto impacto quanto uma resposta.

Garotinho criou constrangimento. Flávio Bolsonaro explorou uma possível contradição comercial. Jair Bolsonaro, porém, fez algo politicamente mais poderoso: colocou a história da Globo sentada à mesa da entrevista.

E foi Míriam Leitão quem, diante das câmeras, teve de responder por ela.

#Política #Comunicação #Jornalismo #Eleições #TVGlobo #Bolsonaro #Mídia

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Onde colocar a turma?

Condenações, processos judiciais e prisões não encerram necessariamente uma trajetória política e, em determinadas circunstâncias, até fortalecem identidades coletivas, alimentam narrativas de perseguição e transformam o condenado em símbolo para seus seguidores.

A história registra alguns casos, que eu divido em dois grupos.

No primeiro, eu agrupo Václav Havel, dramaturgo e dissidente, condenado e preso pelo regime comunista por sua atuação em defesa dos direitos humanos. Libertado em 1983, tornou-se uma das principais lideranças políticas do país e, em dezembro de 1989, chegou à Presidência da Tchecoslováquia.

Cito também Nelson Mandela, líder da resistência ao apartheid, condenado à prisão perpétua por sabotagem e conspiração contra o Estado. Ele permaneceu preso por 27 anos, tornando-se, durante o cárcere, o principal símbolo internacional da oposição ao regime de segregação racial. Nas primeiras eleições nacionais com sufrágio universal do país, Mandela foi eleito presidente da África do Sul.

No segundo grupo, eu coloco Adolf Hitler, Fidel Castro, Hugo Chávez, Juan Domingo Perón e Nicolás Maduro.

A observação dos dois grupos sugere uma lição: decisões judiciais podem afastar uma liderança das urnas e limitar sua atuação institucional, mas não determinam, por si sós, o desaparecimento de sua influência, de sua capacidade de mobilização ou de sua presença na cena política.

Dito isso, faço referência a três casos contemporâneos: Lula, Jair Bolsonaro e Donald Trump. O caso de Trump apresenta uma particularidade: o sistema constitucional americano não estabelece, como regra, a inelegibilidade para a Presidência em razão de uma condenação criminal comum. Assim, mesmo após ser condenado criminalmente em Nova York, Trump pôde disputar — e venceu — a eleição presidencial de 2024.

Lula retornou à Presidência da República após ter sido condenado, preso e, posteriormente, beneficiado pela anulação de suas condenações pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a incompetência da Justiça Federal do Paraná para julgar os processos.

Jair Bolsonaro está preso.

Encerro meu relato com uma questão: em qual desses grupos você colocaria os três casos contemporâneos — Trump, Bolsonaro e Lula? Você separaria os três casos entre os dois grupos ou os manteria juntos? 

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Regina Duarte, Gabriela e a imprensa.

A atriz Gabriela Duarte comentou a entrevista que ela e Regina Duarte concederam ao caderno de cultura da Folha de S.Paulo:

“Tive que gravar esse vídeo porque eu não queria que ele fosse uma resposta a um jornalista ou algo de comunicação. Não é sobre isso, mas vocês já vão entender.

Depois de mais de 20 anos sem atuarmos juntas, eu e minha mãe estamos voltando aos palcos. E é, sim, um reencontro artístico, profissional e pessoal. Às vésperas de ela completar 80 anos de vida, após mais de seis décadas de carreira, nós aceitamos dar nossa primeira grande entrevista juntas sobre esse momento para a capa do caderno de cultura de um dos maiores jornais do país.

Claro que nós sabíamos que outras questões poderiam surgir. Um jornalista pode e deve fazer perguntas difíceis, ainda que a abordagem tenha sido bastante deselegante, nesse caso. Mas tem uma diferença entre perguntar e insistir até provocar uma reação.

Quando o desconforto se torna mais importante que a resposta e a busca parece ser por uma frase, um corte, uma manchete, aí eu acho que vale a pena perguntar: o que está acontecendo com o jornalismo, com a comunicação?

Nos últimos dias, claro, trechos da entrevista viralizaram e o que deveria ser uma conversa sobre cultura, teatro, trajetória e esse reencontro de duas atrizes acabou tendo o constrangimento como protagonista.

O jornalismo pode incomodar, contradizer, questionar, mas ele também precisa ouvir e respeitar, inclusive quando a resposta não entrega a manchete que ele queria, a manchete esperada. Quando o entrevistado entra preparado para se defender, como aconteceu comigo, e não para conversar, alguma coisa já se perdeu.

Talvez o jornalismo esteja vivendo justamente isso, um paradoxo. Na tentativa de sobreviver, ele pode estar destruindo justamente aquilo que o mantém vivo: a confiança.

Insistir em política partidária no caderno de cultura, quando a pauta deveria ser o teatro, a arte, a trajetória, esse reencontro, também merece reflexão. Se o clique vale mais que o contexto, se a repercussão vale mais que a escuta e o conflito mais que a história, aí a gente está diante de um problema muito maior do que uma simples entrevista.

E eu acabo tendo que agradecer a todos vocês que engajaram e até chamaram isso tudo de novelinha da vida real, carinhosamente. Mas já não me resta mais nenhuma dúvida de que, no final das contas, tudo que eu e a minha mãe fazemos é um sucesso e a nossa nova peça vai seguir esse caminho.

Agora é importante lembrar: a imprensa não precisa ser protegida das críticas, mas sim do sensacionalismo.

O jornalismo deve ser louvado pelos bons profissionais, aqueles que sabem perguntar, ouvir e respeitar. Não por quem transforma constrangimento em espetáculo e a audiência em medida de qualidade. Que vocês tenham um ótimo domingo e eu espero todos vocês lá no teatro para celebrar comigo e com a minha mãe essa trajetória tão bonita que é a vida dela.”

Eu assisti à entrevista e entendi que o jornalista fez o que o público dele – o seu verdadeiro patrão –  esperava que ele fizesse.

É bom lembrar que faz algum tempo — um bom e longo tempo — que Regina Duarte deixou de ser apenas uma grande atriz brasileira. No meu entendimento e para o meu gosto, uma das maiores. Contudo, ela tem personalidade política e assume as posições que tem e nisso contraria a filha e, ao que se sabe e se vê, também grande parte dos colegas. 

Nas eleições presidenciais de 2002, Regina Duarte participou ativamente da propaganda eleitoral do candidato José Serra (PSDB), adversário de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como atriz principal da campanha “Eu tenho medo”, referindo-se a Lula e ao PT. A campanha de Lula respondeu com o tema: “A esperança venceu o medo”. 

Na campanha de Jair Bolsonaro, Regina Duarte assumiu a defesa do candidato contra o PT e participou do governo. Ela, portanto, incorporou a política à biografia. Seria pouco realista imaginar que o assunto não aparecesse na entrevista de divulgação da peça, quando todo mundo sabe que, nesse campo, ela e a filha divergem ao ponto da impaciência.

Gabriela Duarte não gostou de tratar do tema. Pudera!

Mas olhemos o fato por outro ângulo: o da publicidade.

Uma entrevista publicada num caderno de cultura já não disputa atenção apenas com outras entrevistas ou outros jornais. Disputa com Instagram, TikTok, YouTube, WhatsApp, podcasts, influenciadores e milhões de estímulos que chegam às telas durante todo o dia.

Nesse ambiente, a resposta ponderada perdeu valor de mercado. O conflito ganhou. Uma boa frase circula. Um constrangimento circula ainda mais. Uma discussão política, então, tem combustível próprio.

E é justamente aí que aparece a grande ironia dessa história.

Gabriela Duarte critica a transformação do constrangimento em espetáculo e da audiência em medida de qualidade. Mas a repercussão da entrevista fez exatamente aquilo que qualquer estratégia de divulgação de uma peça gostaria de conseguir: chamou atenção.

A entrevista produziu a controvérsia. A controvérsia produziu cortes e comentários. E a reação de Gabriela Duarte criou uma nova rodada de notícias e compartilhamentos.

Gabriela Duarte soube aproveitar o momento, já que, no final do vídeo, transformou a crítica em divulgação: lembrou que ela e a mãe estão voltando ao teatro e convidou o público para assistir à peça.

A indignação virou conteúdo, que gerou distribuição e que, por sua vez, se fez publicidade.

Há uma velha tentação de imaginar comunicação como aquilo que gostaríamos de dizer. Não é. Comunicação é aquilo que conseguimos fazer chegar às pessoas — e, principalmente, aquilo que conseguimos fazer com que elas percebam, comentem e guardem na memória – eis o poder da publicidade. 

O jornalista conseguiu a entrevista que interessava ao público e Gabriela Duarte, ao reagir, obteve a repercussão que dificilmente uma entrevista convencional sobre teatro conseguiria.

No final, a comunicação e a publicidade conversaram e as duas atrizes contaram com um excelente coadjuvante, o jornalista. 

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SOBERANIA, DOUTOR?

Diz o Dicionário de Política (Bobbio, Matteucci e Pasquino): “Em sentido lato, o conceito político-jurídico de Soberania indica o poder de mando de última instância, numa sociedade política e, consequentemente, a diferença entre esta e as demais associações humanas em cuja organização não se encontra este poder supremo, exclusivo e não derivado…é a racionalização jurídica do poder, no sentido da transformação da força em poder legítimo, do poder de fato em poder de direito.”

Sendo assim, o conceito de Soberania está presente na Constituição Brasileira nos seguintes termos: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Por isso, não entendo que o povo elege um Presidente para o Brasil, mas alguém para presidir a República, o Poder Executivo, pois, o Presidente do Brasil é o próprio povo que, por ser soberano, coloca e demite os presidentes da república e todos os demais agentes que o representam. 

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Comunicação não é voto

A eleição será decidida não por quem consegue convencer o maior número de eleitores e, para isso, é necessário que, preliminarmente, se alcance um número ainda maior de eleitores com uma mensagem que converta a comunicação em voto. 

Uma pequena nota publicada pelo Estadão, baseada em pesquisa BTG/Nexus, mostra que o  interesse pela propaganda eleitoral na televisão e no rádio é maior entre os eleitores de baixa renda e entre aqueles que não trabalham nem procuram emprego, principalmente aposentados e donas de casa. 

Nesse último grupo, o interesse chega a 77%. Entre quem recebe de um a dois salários mínimos, são 76%. No outro extremo, o índice cai para 36% entre os eleitores com ensino superior e 35% entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos.

Os números parecem responder a uma pergunta simples: afinal, quem ainda assiste à propaganda política na televisão? Mas a pergunta eleitoralmente relevante é outra:

Quem assiste, quem pode mudar de opinião e quem efetivamente irá votar?

É aí que comunicação e estratégia eleitoral deixam de ser a mesma coisa.

Durante anos, campanhas mediram sua força por audiência, alcance, seguidores, visualizações e engajamento. São métricas importantes. Mas nenhuma delas, isoladamente, significa voto.

O eleitor brasileiro de 2026 está distribuído por ambientes de comunicação bem diferentes.

O jovem está fortemente no digital. O eleitor de maior renda e escolaridade também. Já a televisão e o rádio continuam alcançando com intensidade parcelas idosas, populares e segmentos que estão fora da força de trabalho.

Isso não significa simplesmente que os idosos estão na televisão e os jovens na internet. O eleitor de 60 ou 70 anos também usa WhatsApp, YouTube e redes sociais. A diferença está na combinação dos meios e no peso que cada um exerce sobre ele.

E não é suficiente cruzar intenção de voto com idade, renda e escolaridade. É preciso acrescentar outras dimensões: ocupação, meio de informação, interesse pela eleição, convicção do voto, possibilidade de mudança e propensão ao comparecimento.

Surge então uma distinção fundamental entre três eleitores: o convencido, que precisa ser preservado; o persuadível, cujo voto ainda pode mudar; e o mobilizável, que pode ter preferência, mas precisa chegar à urna.

Cada um exige uma comunicação diferente.

E há uma categoria especialmente interessante revelada pela pesquisa: os brasileiros que não trabalham nem procuram emprego. Tecnicamente, eles estão fora da força de trabalho — grupo que inclui aposentados, pessoas dedicadas ao trabalho doméstico não remunerado, estudantes e outras situações.

Essa variável introduz algo pouco observado pelas campanhas: o tempo e a rotina de exposição à comunicação.

É relevante descobrir qual eleitor está em cada ambiente, quanto vale eleitoralmente alcançá-lo e qual mensagem é capaz de fazê-lo avançar da exposição para a persuasão, da persuasão para a preferência e da preferência para a urna.

Essa é, a meu ver, a métrica central de uma campanha moderna: não quantas pessoas viram a comunicação, mas quantos votos a comunicação foi capaz de produzir, consolidar ou levar à urna.

No fim, eleição não se ganha em audiência.

Ganha-se na conversão da comunicação em voto.

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Da indignação à desgraça.

Está dito no site do Partido Novo: “O NOVO é um partido fundado por cidadãos ficha-limpa, que nunca haviam se envolvido com política e resolveram sair da indignação para a ação…”

O que se tem, na verdade? Uma indignação que levou os dirigentes do partido a ações que representam o exato oposto daquilo que defendem. Por isso, a tendência do partido é desaparecer na eleição deste ano, por não alcançar a cláusula de barreira.

O partido optou pela decisão de burocratas assalariados, gente sem experiência no lidar com a política e que levou o partido a ser a expressão envergonhada do bolsonarismo.

Pena.

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Até que sai barato, não?

São nada menos que R$4,9 bilhões retirados dos cofres públicos para abastecer o Fundo Eleitoral, dinheiro que os donos dos partidos distribuem do modo como acham melhor e desse jeito somam mais essa prerrogativa às de registrar as candidaturas e distribuir o tempo de veiculação gratuita no rádio e na TV.

O eleitor paga a conta.

Divididos entre 212 milhões de brasileiros, os R$4,9 bilhões representam cerca de R$23 por pessoa — da criança recém-nascida ao aposentado. Mas, se considerarmos somente os 156 milhões de eleitores aptos, o custo chega a cerca de R$31,50 por título eleitoral.

Uma bagatela, que o eleitor paga para votar, para anular o voto ou votar em branco e também para se ausentar, se assim decidir.

É nesse ponto que a matemática das ruas revela toda a perversidade do sistema. O cidadão que vende o voto por um valor maior do que os R$31,50 está, na verdade, se ressarcindo com lucro.

Uma doideira, não?

Entretanto comprar o voto é crime, vender também. Então, considerando-se o custo benefício, ideal seria que o Estado punisse com rigor a compra e a venda do voto, a ponto de tornar a venda e a compra um enorme prejuízo, que desaconselhe a transação a qualquer preço.

Contudo, a fiscalização e a punição reduzem são tão irrelevantes, que o ato de comprar e vender voto já é usado com a mais absoluta naturalidade. Então, está válida a conta: quem vender o voto por um valor do que os 31 reais e 50 centavos, está se ressarcindo com lucro.

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Stefan Zweig

Sentindo-me um exilado em minha própria terra, em razão da enorme transformação que se fez e ainda se faz por aqui, reencontrei O Mundo de Ontem, de Stefan Zweig (1881–1942). 

Em 1941, Zweig estabeleceu-se com sua segunda esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Veio como exilado e, profundamente impressionado com o país, escreveu Brasil, País do Futuro, publicado em 1941.

Antes de vir para o Brasil, Zweig testemunhou pessoalmente como, em sua terra, uma sociedade culturalmente sofisticada permitiu que o Estado deixasse de proteger o indivíduo e passasse a persegui-lo.

Para ele, liberdade, tolerância e limites ao poder político não eram abstrações filosóficas. Eram questões existenciais.

O Mundo de Ontem descreve a juventude de Zweig em Viena, no final do século XIX, vivida sob uma sensação de estabilidade, sustentada pela confiança nas instituições, no progresso científico, na educação e na cultura. 

Para sua geração, parecia que a civilização europeia avançaria continuamente. Esse é o “mundo de ontem” do título.

Por isso, uma das grandes questões do livro é: o que acontece com uma pessoa quando o Estado ao qual ela pertencia deixa de reconhecê-la como parte da comunidade?

Zweig cresceu acreditando que a liberdade, a tolerância, a circulação de pessoas, a cultura e a racionalidade política eram conquistas irreversíveis. Não eram. Civilizações que parecem sólidas podem desaparecer rapidamente.

Talvez essa seja a lição mais contemporânea do livro: a democracia e a liberdade não são estados permanentes de uma sociedade. São construções que precisam ser continuamente preservadas.

O livro é o testemunho de alguém que viu desaparecer a Europa liberal e cosmopolita de sua juventude sob duas guerras mundiais, nacionalismos, antissemitismo e totalitarismos.

Em 22 de fevereiro de 1942, Stefan Zweig e Lotte foram encontrados mortos em casa, em Petrópolis. Cometeram suicídio. Na mensagem de despedida, Zweig agradeceu ao Brasil pela hospitalidade e explicou seu profundo esgotamento diante da destruição do mundo europeu ao qual pertencera.

Que maravilha são os versos que compõem Jeremias, drama de Stefan Zweig escrito durante a Primeira Guerra Mundial e publicado em 1917.

A passagem está no nono e último quadro da peça, quando Jerusalém foi derrotada e o povo judeu parte para o exílio após a conquista babilônica.

“(…) Seguiremos por caminhos estrangeiros,
o vento nos empurrará de país em país,
os povos nos arrancarão pátria após pátria,
sem deixar que nossas sandálias adiram à terra.
Nosso tronco derrubado já não criará raízes.
Nosso destino é errar ao sabor do mundo errante;
mas sejamos felizes, nós, vencidos universais,
lançados à grande estrada como a palha do refugo,
sem apego a lugar algum e em lugar algum bem-vindos;
em cortejo eterno atravessamos as eras
rumo à Jerusalém das almas.”

Ler é sempre o melhor caminho para a gente descobrir se é forasteiro ou nativo no Brasil.