Quando uma mulher diz não.
A crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio está na decisão de Flávio de abrir mão da dignidade do pai e da família, para vencer a eleição. No Ceará, houve a representação concreta desse fato. É fácil conhecer. Está disponível e é um caso explorado ao cansaço nos últimos dias.
Em razão da crise, Michelle tem sido massacrada nas redes sociais até mesmo por outras mulheres da direita, gente cega pelo poder e que esquece que, mais importante do que discutir quem tem razão na disputa política, é perceber o que ela simboliza: existem limites que nem toda estratégia eleitoral deveria ultrapassar.
Há momentos em que a política revela sua melhor face. E há momentos em que ela expõe sua maior miséria. A diferença entre uma e outra não costuma estar na vitória ou na derrota. Está no preço que cada um aceita pagar para vencer. E isso nada tem a ver com ser de direita ou de esquerda, mas com ter dignidade.
Voltemos à eleição de 2012. Fernando Haddad foi lançado candidato à Prefeitura de São Paulo, e Luíza Erundina aceitou compor a chapa como candidata a vice. Era uma aliança considerada estratégica para a esquerda. Três dias depois, Lula e Haddad surgiram sorridentes ao lado de Paulo Maluf, nos jardins da mansão dele. Apertaram as mãos. Selaram um acordo. O objetivo era claro: ampliar a aliança eleitoral e conquistar mais tempo de televisão.
Para Haddad e Lula, o gesto fazia sentido. Para Erundina, não. Ela não discutiu pesquisas nem fez cálculos eleitorais. Apenas se perguntou quanto custaria permanecer, e a resposta foi suficiente. Renunciou à candidatura e registrou: “Não preciso ser vice para fazer política.” Haddad foi eleito, mas, para Luíza Erundina, a eleição tornou-se menor do que uma biografia.
Elaborei a estratégia de duas campanhas de Denise Frossard: uma para a Câmara dos Deputados e outra para o Governo do Estado. Denise foi eleita deputada federal com uma votação expressiva e, para muitos, inacreditável, mas perdeu a disputa pelo governo no segundo turno. Sérgio Cabral venceu.
Quando chegamos ao segundo turno, apareceram as propostas de composição. Ela, por diversas vezes, disse não, repetindo uma frase que virou um mantra naquela campanha: “A minha dignidade, a memória que tenho da minha história não permitem.”
Machado de Assis enfrentou esse mesmo dilema no conto Luís Soares. Vale a leitura.
A política vive cercada de justificativas para pequenas renúncias morais. “Às favas todos os escrúpulos”, disse Jarbas Passarinho ao assinar o AI-5.
Relativiza-se um discurso para conquistar apoio. Depois aceita-se um aliado inconveniente em nome da governabilidade. Quase sempre há uma boa explicação. O problema é que, de concessão em concessão, chega o dia em que já não restam princípios para defender.
Citei quatro casos: quatro mulheres: Michelle, Erundina, Denise Frossard e Adelaide, prima de Luís Soares e apaixonada por ele, uma paixão deixada de lado em nome da própria dignidade. É por isso que a presença feminina na política merece uma reflexão diferente daquela que normalmente domina o debate. Não se trata apenas de cumprir cotas. Nem de estatísticas. Nem de representação numérica.
As mulheres não são superiores aos homens em dignidade, pois a virtude não tem sexo. A diferença é que elas, em diversos momentos da história, foram confrontadas com o dilema entre o pragmatismo e a dignidade e sobreviveram todas as vezes, que escolheram a dignidade.
O pragmatismo pode definir o presente. A dignidade é o que constrói o futuro.
“Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas excedes.”
Provérbios 31:29


